sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Não matarás

A legislação divina, em seu quinto artigo, veda ao homem ofender a existência em geral, seja da própria vida ou a de outrem, neste caso a dupla vida, do corpo e da alma: "Não matarás" (Dt 5,17). Mas um outro mandamento vem de encontro a esse, o oitavo: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Dt 5,20). O primeiro sentido, claro, é o de não proceder a depoimento falso, mentiroso. Todavia, uma interpretação "senso lato" do artigo analisa-se a mentira, a difamação e a injúria, golpes estes que, não poucas vezes, atingem mortalmente a honra, o corpo e a alma. E, talvez, a que fere deveras mortalmente é a difamação, prejudicando, injustamente, a reputação do próximo, tendo como arma a língua; como projétil o verbo.
Os meios que o difamador lança mão para alcançar seus fins são a calúnia, a maledicência ou murmuração e a delação, aliás, muito comuns em nossos dias, em que os princípios éticos facilmente são acalcanhados, em benefício de interesses mesquinhos ou pela simples satisfação de ferir a fama alheia. - Quantas pessoas são, por isso, prejudicadas, quantas honras maculadas, quantos corpos enfermos e quantas almas feridas pelo veneno desses "diabolos"? Inevitavelmente, muitas vezes, somos obrigados a conviver com esses asseclas do príncipe das trevas, que os atrai, mais e mais, a cada novo golpe, para os ergástulos de todos os vícios, onde imperam a inveja, o orgulho e a presunção. Por mais que insistam em justificar seus atos, jamais deixarão de ser assassinos morais, pois as conseqüências de suas atitudes são sempre más.
Mais repugnante ainda são aqueles que, dissimulados, chegam a se apresentar, ora como vítimas, ora como protótipos de uma conduta ilibada. Contudo, ao final, conhece-se sua intenção. Assim, se a difamação faz-se a um superior, propõe-se a desacreditar e incompatibilizar a vítima; se a um parente ou amigo, desmancha a amizade, alui a confiança, perturba o sossego do lar. E nessa súcia há difamadores de toda espécie, dependendo do grau de sua pusilanimidade, uma vez sua atitude facínora nada mais ser senão um modo de encobrir suas fraquezas.Na hierarquia dos difamadores há os insignificantes, a quem pouco crédito se dá, pois não gozam de uma reputação capaz de endossar suas atitudes. Os conspícuos, morigerados e reservados, por sua vez, são perigosos, valendo-se de um falso prestígio para que suas palavras causem impressão. Porém, os piores de todos são os que denominaríamos "fariseus hodiernos": pérfidos cristãos, mostrando-se tementes a Deus e sinceros, enquanto, na verdade, não passam de celerados, promotores da discórdia, assassinos de almas; pena esquecerem-se da admoestação evangélica: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus" (Mt 7,21). - Quanto a eles, julgarem-se sinceros é um desrespeito aos probos e cultos, pois a sinceridade só vale se amparada na caridade, e esta virtude a desconhece essa corja de difamadores. O homem deve, sim, falar sempre a verdade, mas não todas as verdades - isto é um princípio moral, o que não quer dizer que deva mentir. A sinceridade manda pensar tudo o que se irá dizer, e não dizer tudo o que se pensa. A discrição manda calar o que não é oportuno, manda ponderar as palavras e silenciar os segredos. A sinceridade e discrição são duas virtudes preciosíssimas por igual. Se fossem abstraídas pelos difamadores de plantão, vendetas da discórdia, talvez a sociedade seria mais justa e fraterna.