sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Os pecados capitais

Existem, na doutrina da Igreja Católica, sete pecados considerados capitais, isso porque, como os define São Tomás de Aquino, deles se originam inúmeros outros pecados. O Doutor Angélico analisa, em sua obra, a experiência acumulada sobre o homem ao longo de séculos. Se o filosofar tomista é sempre voltado para a experiência e para o fenômeno, mais do que em qualquer outro campo, é quando trata dos vícios que seu pensamento mergulha no concreto, pois, reportando-se a Dionísio, malum autem contingit ex singularibus defectis ("para conhecer o mal é necessário voltar-se para os modos concretos em que ele ocorre").
A definição dos pecados capitais ocorreu no século IV, em um processo considerado por alguns historiadores eclesiásticos de organização da experiência antropológica, ao ser feita uma tomografia da alma humana. Então, no que diz respeito aos vícios, surge a doutrina dos pecados capitais, por São Gregório Magno e São João Cassiano, definindo-a com base nas fontes da Revelação, e São Tomás os enumera como: orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Até hoje, embora um relativismo moral "absolva" a consciência de muitos, a Igreja ainda insiste na observância contra esses delitos. Em seu Novo Catecismo, lê-se sobre a doutrina dos sete pecados capitais, fruto da "experiência cristã" (ponto 1866).
É interessante observar que a lembrança desses pecados em um exame de consciência não só prepara o católico para a confissão, mas também serve como fonte de identificação para o defeito dominante que determina os outros, chamado de pecado hegemônico. Essa doutrina, que, como tantas outras descobertas antropológicas dos antigos, está hoje esquecida, bem poderia ajudar ao homem contemporâneo em sua desorientação moral e antropológica. Os pecados capitais vão além do nível individual. Iniciando-se no coração da pessoa, eles se concentram em determinados ambientes, instalando-se em determinadas instituições.
Para melhor situar essas faltas em nossos dias, temos o exemplo da corrupção que vigora nos meios políticos, que se identifica como a avareza, aniquilando o interesse generoso e correto para o desenvolvimento e os cidadãos da nação, em prol de benefícios financeiros próprios. Na realidade urbana, o aumento da violência relaciona-se à ira e à gula, esta representada pelo uso de drogas e o consumo exagerado de bebidas. Aliás, o Príncipe dos Apóstolos já alertava os primeiros cristãos: "Vigiai e sede sóbrios", fortalecendo o espírito a fim de evitar que os pecados capitais tomem conta da vida das pessoas.
Estudar e entender os pecados capitais é um grande proveito para o progresso espiritual e santidade do católico, ao reconhecer suas fraquezas e, por meio de práticas penitencias, buscar viver as virtudes cristãs. Entretanto, só com humildade, a exemplo de tantos santos, alcançar-se-ão as virtudes. Santa Teresa D'Ávila considerava a humildade como o chão das virtudes: "Qualquer virtude sem humildade cai, pois fica no ar sem ter em que se prender; assim ela não cresce, tão pouco se desenvolve".É por depender da humildade que os homens abrem mão das virtudes, da graça divina, e continuam a rastejar pelos vales dos vícios...
05/01/2006

Posições antagônicas

O Conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira, por influências de família e pelo meio em que viveu, desde cedo se mostrou um liberal. Ao ingressar nos meios acadêmicos na Faculdade de Direito, em São Paulo, Lafayette pôde absorver melhor todo esse pensamento, professando-o de tal forma que se acabou, quiçá, naquele momento, cético, regendo-se pela cartilha dos pensadores modernos de então. Mas, em nenhum momento, perdeu-se, por isso, em delírios, afrontando as instituições e desacreditando-se dos conceitos naturais em que se apóiam a ética e a moral.
Passados os arroubos racionalistas que o envolveram, conseguiu, contudo, um tal discernimento que o levou a interpretar bem sua escola e aplicá-la em seus trabalhos, a ponto de tornar-se um piedoso racionalista, parafraseando um amigo que considera ter sido Salazar um “piedoso agnóstico”. Suas especulações intelectuais fluíram de sua pena em seus artigos jornalísticos, pareceres jurídicos, ensaios etc., concluindo-se, daí, que o aticismo de sua dialética e a firmeza de seus atributos como humanista não eram de uma mente confusa e de opinião susceptível a mutações, senão de uma inteligência larga e de discernimento imediato. Em toda a sua obra literária e jurídica verifica-se o homem de cultura invulgar com profundo conhecimento das diversas correntes do pensamento humano.
Este pequeno preâmbulo sobre sua cultura filosófica e humanista deve-se à curiosidade de entender sua opinião, à primeira vista, antagônica com relação à República, pois em seu pensamento tinham os argumentos que o levara a tornar-se republicano; por isso não se aliou, posteriormente, aos positivistas. Membro do Partido Liberal, que caiu em 1868, foi um dos signatários do Manifesto Republicano, elaborado por Quintino Bocaiúva, em 3 de dezembro de 1870.Passaram-se quase 20 anos. Nesse período, o ilustre queluzense participou ativamente da política do Império do Brasil, com grande apreço de Dom Pedro II, mesmo sendo republicano... E sua concepção de uma República no Brasil conhecemo-la ao ser instaurado o sistema no país, a 15 de novembro de 1889. Estava nos Estados Unidos, como Ministro Plenipotenciário na 1ª Conferência Pan-americana, quando, em missiva à sua idolatrada esposa Francisca de Paula Freitas Coutinho, Lafayette revela sua posição sobre o novo regime: “Mal acabava de saber da tristíssima morte do nosso querido Júlio [seu cunhado], quando me entra pela sala o Dr. Costa, anunciando-me a notícia dos extraordinários e inesperados acontecimentos do Rio de Janeiro. (...) Se nos tivessem dito que essa terra tinha desaparecido debaixo das águas do mar, a nossa estupefação não seria maior! (...) Como compreendes, eu, em hipótese nenhuma, aceitaria a renovação do mandato. (...) Não posso seguir para aí, como tanto desejo, porque valeria o mesmo que ir meter-me na boca do lobo. O governo revolucionário que aí fundaram está exercendo uma perfeita ditadura. A sua única lei é a sua vontade. E nesse governo há um homem que seria capaz de assassinar-me. (...) Eu estou com o meu espírito perfeitamente tranqüilo”. Esta era a opinião de Lafayette sobre a República imposta no Brasil, comemorada na última semana.
14/11/2005

Patrimônio Histórico

Em Lafaiete, são poucos os monumentos setecentistas e oitocentistas sobreviventes à epidemia iconoclasta que acometeu os reservatórios da cultura de nosso povo, com maior violência no século das luzes que findou há pouco, visto muitos não terem se interessado, colocando abaixo essas testemunhas co-participantes de nossa História.
A sadia soberba que ora floresce no meio intelectual da bicentenária Queluz tem despertado deveras o interesse pelas cousas que não só refletem o fausto de um período, como marcam uma determinada época. Uma eclosão de valores, sentimentos, idéias, nos detalhes de um altar, nas cores e ornamentos dos painéis, na imponência das construções abastadas e na singeleza daquelas outras, erguidas com modéstia, mas, cada qual, com sua peculiaridade e seu valor, seja ele artístico ou histórico. Houve as construções realizadas em momentos de muita fartura, como também aquelas feitas a longo e custoso prazo, já em um tempo de decadência e às vezes até de miséria.
Encontramos inúmeras justificativas para o desaparecimento de grande parte de nosso patrimônio; umas compreensíveis - se assim podemos dizer -, outras inadmissíveis. Consideremos compreensível a perda de um monumento por falta de estrutura, em uma época em que ainda não existiam recursos tão avançados - muito comuns na atualidade - e aqueles outros que se perderam pela crueldade do fogo e das intempéries. É inadmissível, porém, a perda de um monumento por descuido de seus proprietários, para ceder lugar a novas construções, o que foi muito comum no início do século 20, quando a moda era o palacete em estilo neoclássico; aliás, esses já velhos palacetes, que também não deixaram de marcar época, hoje estão dando lugar às construções de cimento armado, sem nenhum gosto artístico. Há, também, os costumeiros casos de famílias tradicionais que, após talharem e retalharem seus fabulosos espólios, deixaram cair nas mãos dalgum desavisado herdeiro um edifício histórico que ele jamais soube como preservá-lo, além do desinteresse e da falta de condição financeira; restando, então, ao finório negocista, vender o bem de família herdado. O comprador, sem motivos sentimentais para conservar o imóvel, e muitos menos preocupado com preservação de patrimônio, o põe abaixo, muitas vezes interessado em um dinheiro fácil ou presunçoso em exibir mais uma construção em novo e moderno "design".
Por causa desse desespero, desapareceram muitos sobrados e sedes de fazendas, sendo, alguns deles, reconstruídos em outros lugares. Por estas Minas, quantas igrejas foram abaixo e seus altares, imagens, vasos sagrados etc., uns levados a leilões, outros vendidos - e até presenteados - no que chamamos de "na calada da noite", hoje recolhidos em antiquários por esses brasis e pelo mundo afora!... É uma responsabilidade muito grande a preservação dessas edificações e seus patrimônios, o que não poderá ser, jamais - em uma época de grande tecnologia, com recursos surpreendentes -, motivo para deixarem o destino dos monumentos que ainda restam à sorte das intempéries da natureza e do homem, esta última a mais cruel e avassaladora.Em Lafaiete, muito pouco resta dos séculos 18 e 19 e até os estilos do último século já começaram a sofrer ataques. Tudo isso em conseqüência de uma má formação cultural da população. Que as autoridades competentes lutem pela preservação do pouco que ainda resta, antes que seja tarde demais.
17/11/2005

Coisas da natureza humana

Chegou-me às mãos, recentemente, por curiosidade de um bom amigo desejoso de esclarecimentos, um jornaleco de determinada seita religiosa (aliás, nem sei se pode-se denominá-la seita, pois não se sabe de qual ventre foi parida) com infundados ataques contra a Igreja Católica. Não sou autoridade designada para falar em nome da Esposa Imaculada de Cristo, mas sou cristão e o fato de sê-lo me exime de todo respeito humano, impulsionando-me a defendê-la, por ser ela Mãe, como a define os Padres, Santos e Concílios.
Foram três os temas abordados de forma infeliz. O primeiro atribuía as desestruturações sociais, principalmente, dos países de terceiro mundo à calonização católica, inclusive afirmando que a Igreja não promovia e nem permitia a educação desses povos. Ora, isso não passa de parolice maldizente; esquecera-se o desditoso articulista, ou nunca soube (por tratar-se de um mal informado de quatro costados) que foi a Igreja quem promoveu a fundação das grandes universidades, ainda na Idade Média, e que às colônias dos reinos cristãos acorriam os missionários para levar a luz da Verdade e todo o tipo de formação necessária aos gentios. Ainda na mesma execrável página, o autor do tão repugnante texto não poupou críticas ao Tribunal do Santo Ofício e a questões de disciplina eclesiástica.
Nunca a Igreja, santa em seu Fundador e sempre pura na sua doutrina e na sua moral, deixou de encaminhar os seus filhos para a prática das mais belas e até das mais heróicas virtudes. E, por isso, não obstante as fraquezas da humanidade e a grande força das paixões, jamais deixou de haver entre os católicos uma grande multidão de santos, de apóstolos, de mártires, de homens de grande e nobre caráter, incapazes de baixezas e prontos a levar a cabo obras da mais elevada perfeição e da mais sublime caridade. Mas não deixa o cristão de ser um homem livre, e nem a graça do batismo, nem também a do sacerdócio aniquilam as propensões que o puxam para o mal. Mesmo no Colégio Apostólico houve quem atraiçoasse o Divino Mestre. E no correr dos séculos houve sacerdotes, bispos e até Papas, que faltaram às obrigações do seu estado.
E o que se segue daí? Que é falsa a sua doutrina? Mas nunca a esta doutrina nem à Igreja docente foi jamais concedido o privilégio da impecabilidade. Deduz-se ser impotente para produzir os frutos de virtudes, que ela própria preconiza? Ainda nos tempos mais corruptos contou entre seus filhos santos eminentes que conseguiram reagir contra a corrupção dominante e reformar a sociedade. Em lugar, porém, de admirarem estes prodígios de virtude, operados pela graça sobrenatural num sem número de almas, apesar da impetuosidade das paixões, dão-se os inimigos do catolicismo, com grande afã, a rebuscar, através dos séculos, os abusos e faltas, necessariamente inerentes à frágil natureza humana, para delas fazerem o grande cavalo de batalha na sua guerra contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja. Para esses homens não tem importância alguma a obra de regeneração social que ela efetuou: nem eles atentam na luta incessante que ela tem de sustentar contra tudo quanto se opõe à lei divina. Os crimes de alguns celerados, que receberam o batismo, são o grande arsenal para esses farejadores de escândalos. Por isso, não se deve dar crédito a esses pobres coitados que, sem estarem seguros na Barca de Pedro, facilmente, mais cedo ou mais tarde, se soçobrarão nas águas revoltas do oceano de dúvidas, de incompreensões e de amarguras em que navegam. Pobres loucos!
21/102/2005

À minha professora

Neste dia, especialmente dedicado ao professor, não poderia deixar invadir-me o âmago uma saudável nostalgia e, pedindo licença à Reformadora do Carmelo, Teresa d'Ávila, cuja solenidade a Santa Igreja lhe dedica o 15 de outubro, reverenciar aquela que tanto marcou minha formação. Não me permito esquecer outras que, também, assinalaram meus primeiros anos de estudo; mas a uma dedico especial afeto e gratidão. Se não a vejo, se não a procuro, decorre das imposições da azáfama hodierna; contudo, sempre me lembro daquela caríssima professora do curso primário.
Por isso, permita-me o prezado leitor tributar minha homenagem àquela que, como "os velhos troncos, plácidos ermitas, / riem no riso em flor das parasitas", sustentava seus alunos no albor de seus anos pueris, alimentando-nos com sua seiva, o saber. E me vem à mente a sentença do glorioso advogado da casta Suzana dos Escritos Sagrados: Qui ad justitiam erudiunt multos, quasi stellæ in perpetuos æternitates (Dan 12,3) - "Os que ensinam a muitos o caminho da justiça, brilharão como estrelas por toda a eternidade". A feliz e bela comparação contida nesse hemistíquio do profeta Daniel é a mais sincera expressão da vastidão de minhas lembranças. Por mais límpido e luminoso que esteja o cerúleo pálio, destaca-se, nele, vivamente, a cintilação dos astros. E o vate hebreu, estabelecendo um confronto entre a ciência e o magistério, entre o saber e o ensinar, assegura que os doutos, que os sábios, brilham como o firmamento, mas os mestres, os que ensinam, brilham "como as estrelas". Tal a gloriosa idéia que a humanidade sempre formou do magistério, que encontramos Alexandre Magno dizer-se mais devedor a seu mestre Aristóteles do que a seu pai, porquanto, se este lhe dera a vida, ensinara-lhe aquele a bem viver.
Meu reconhecimento, hoje, além de sê-lo pelo que lucrei naqueles dias em que estive sob os cuidados de minha professora, é por compreender o devotamento que ela sempre demonstrou ter à sua missão e ao sublime objeto do magistério primário e de toda a pedagogia: a criança. Éramos inocentes, dávamos os primeiros passos no mundo da razão e ela era um claro fanal a guiar-nos nas sendas, às vezes obscuras, do conhecimento, a esboçar-nos o caráter de cada um, atenta ao princípio cristão res sacra puer - "a criança é sagrada", sem, contudo, derreter-se em mimos, afagos e concessões; ao contrário, firme e enérgica, com respeito e carinho, esmerando-se no dever de preparar lídimos cidadãos. No exercício desse seu ministério, para conseguir tão sublime ideal, lançou mão de todos os meios pedagógicos, porém prevaleceu aquele que corrobora os demais: o exemplo, confirmado a máxima de Sêneca: longum iter est per præcepta, breve et efficax per exempla - "longo é o ensino pelo preceito, breve pelo exemplo".
Bendita seja, pois, minha professora, cujo exemplo soou-nos, melhor que toas as melopéias do mundo, qual uma ária de dedicação ao ensino, de devotamento aos seus alunos, de suas conquistas na formação do caráter e no preparo de cidadãos brasileiros. Parecia seguir a admonição de São João Bosco: "Que o mestre faça-se amar, se quiser fazer-se respeitar", pois conseguiu tornar-se inesquecível nas reminiscências de seus ex-alunos.
Por isso, neste dia, quisera resgatar a inocência do coração infantil, com o qual senti, outrora, as impressões da vida, para externar minha gratidão à minha professora. Sendo-me, porém, impossível, perpetuo este meu sentimento nesta página.- Muito obrigado, Dona Diva Palomba Batista!
15/10/2005

Coisas da natureza...

Vivemos dias tumultuados. Avanços tecnológicos, conquistas espaciais, a informática se modernizando a cada minuto, a preocupação econômica, tanto das grandes potências quanto das tíbias nações, com as bolsas de valores que sobem e que descem, a política liberal sempre usufruindo desses momentos para dar suas investidas e desfalques; o corre-corre maligno contaminando a Humanidade que, preocupada em se modernizar, voando ao encalço do progresso, muitas vezes se distancia de suas origens, dos princípios que devem reger sua vida, das obrigações para com a família, com a Pátria... enfim, não se lembra mais de Deus. E por que lembrar-se de Deus?
A participação e presença eterna de Nosso Senhor na vida da Humanidade não é mais lembrada. A adoração única, interior, exterior e pública devida somente a Deus vai sendo esquecida e substituída pela irreverência, pelo sacrilégio, pelas superstições imbecis que tanto escravizam aqueles que as temem, pela idolatria a deuses pagãos que se escondem sob a ideologia charlatanesca e ritos heréticos, travestidos de um misticismo banal. O Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, o Deus que falou pela boca dos Profetas do Antigo Testamento, o Deus que se humanou e, pela sua morte, redimiu o homem, o Deus dos grandes Santos e Pontífices de sua Igreja, o Deus que é a única esperança, o único Senhor, já não mais reina no coração dos homens. Caminha o mundo para uma apostasia que, ao alçar seu pendão, convoca ao recrutamento os míseros filhos de Eva que não se deixaram atingir pela graça do Deus Redentor, amando, portanto, mais as trevas do que a Luz. Daí, vem-nos à mente o ensinamento do Magistério da Igreja, de que todos os males físicos e materiais que não provêm do homem, é desígnio de Deus.
Temos sido, nos últimos tempos, testemunhas de catástrofes decorrentes das fraquezas humanas, bem como daquelas que não se acha explicação. Então, estagnado ante a tragédia, o homem não se encoraja em meditar o que pode ter levado a ocorrer o tal infortúnio. Ora, se Deus usa das causas segundas em seus desígnios, logo os acontecimentos, em diversas partes do mundo, resultantes de uma ordem da natureza alterada (pelo homem), podem ter sido permitidos pelo Criador. Mas, com que intento? Seriam um sinal divino pelas desordens moral e social que assolam o mundo, num sacrilégio coletivo cometido contra Nossa Senhor?
O comodismo de muitos, principalmente dos mais esclarecidos, tem dado oportunidade para graves escândalos contra a natureza e contra a Fé. Enquanto isso, disseminam-se ideologias ambíguas, muitas delas outrora condenadas. Se a humanidade caminha para a apostasia, os governantes, inclusive a Igreja, têm sua fração de responsabilidade nesse triste processo e no comprometimento do destino daqueles que, cegamente, abraçam a modernização. Por isso, tudo nos leva a crer que os últimos acontecimentos que a priori são catástrofes da natureza, bem como outros impressionantes acontecimentos inexplicáveis, sejam um sinal de Deus.“Ab ira tua, libera nos Domine.”
05/10/2005

Alma brasiliense

Perde-se, com o passar dos anos, como acontece como muito vocábulos da língua portuguesa, o sentido puro do que seja a Pátria e do senso de patriotismo. Neste exemplo, especificamente, há quem acredite existir até um interesse, de determinado(s) grupo(s), promotores de uma confusão ideológica, numa mitificação de valores essenciais à vida e à formação da sociedade. Mas não atentam para a necessidade de identificação que um povo tem, desde sempre, das mais priscas eras, a ponto de desenvolverem-se movimentos extremistas, por causa desse zelo, dessa exigência da alma humana, desse orgulho que o homem traz consigo desde o ventre materno, que é esse nacionalismo.
A origem desse sentimento nasce junto à necessidade do homem de viver em sociedade. Nenhum homem esgota em sua vida e com as suas aptidões todas as virtualidades da alma humana. Para bem manifestar a grandeza e a beleza da alma humana, na exaustão de suas possibilidades, o homem necessitou multiplicar e diversificar-se. Logo, a perfeição do homem vê-se na humanidade desdobrada, embora ela seja insuficiente. Para bem exibir diante do universo e das galerias angélicas toda a riqueza do animal/racional, ou da alma feita à imagem e semelhança de Deus, necessitou-se, ainda, recorrer à História e ao contraponto das civilizações, diferenciar os agrupamentos humanos em tipo, com línguas, costumes e cultura diversificados. Daí, o fundamento natural da pátria, onde se atende a uma vocação comum, nutre-se uma cultura comum, expressa não apenas pela língua comum, mas por todo o jogo de símbolos, de significações multiplicadas resultantes das alegrias comuns e dos sofrimentos comuns, imersos na profundidade das almas por sinais comuns.
Percebe-se, então, esse envoltório humano, cultural, sociológico, histórico, geográfico tal um campo de forças que nos penetra e que se cruza dentro de nós, fazendo-nos ser como somos, conforme sentimos e amamos. Nossos envoltórios, a família, o bairro, a pátria, são obras emanadas de nossas almas e são elas que refluem e modelam nossas almas. Há por fora de nós um enorme Brasil exterior; há dentro de nós um Brasil interior de sentimentos e de virtudes que devem ser cultivadas e apuradas para que o Brasil exterior seja melhor e mais Brasil, cada vez melhor, para formar as almas de seus filhos.Nestes dias, precisa-se cultivar essa piedade, esse respeito pelo grande quinhão que nos coube na prodigiosa aventura do gênero humano, não para excluir-se e fechar-se, mas para que o amor pátrio seja difusivo e transforme-se em amor universal.
19/09/2005

Um rio de lamas... de dinheiro

O que faltava para completar (e complicar) os episódios que levaram à formação de uma CPI no Congresso Nacional, o que está prendendo a atenção de grande parte dos brasileiros nas últimas semanas, o que faltava no elenco dos personagens entrou em cena, por último, quando pensava aproximar-se o grand final: uma caftina.
Assemelham-se os escândalos a episódios históricos e romanceados, envolvendo o poder, os nobres e, como numa época em que em que o patamar da mulher se encontrava sempre abaixo ao patamar do homem, uma delas se envolve na trama do poder com elementos sedutores da sensualidade, formando o tríplice contentamento da natureza decaída: o poder, o dinheiro e o prazer carnal; o poder, como o mundo, a seduzir; o dinheiro (como instrumento do demônio) tentando; e a carne... é fraca.
No drama que se desenrola em Brasília, não diferente de uma escola teatral renascentista, em que a interpretação vai além de uma simples encenação da peça, apresentam-se o poder e toda a sua entourage, os “mecenas” da política, ou melhor, do poder e a messalina usufruindo de ambos. Para uns, o aparecimento da Sra. Jane não passa de uma especulação sensacionalista, até de auto-promoção; para outros ela pode ser uma fonte preciosa. Não que seu depoimento, se for intimada a fazê-lo, colocará um final na questão. Suas palavras poderão envolver mais pessoas, complicando ainda mais a situação.
E tudo isso por causa da ambição, de todas as formas como for possível se envolver: a ambição pelo poder, a ambição pelo dinheiro. O poder, pelo qual os homens começaram, desde sempre, a guerrear; o dinheiro, como aquela pela qual Judas vendeu o seu Rabi. Isso sempre existiu, seqüela do pecado original dos primeiros pais; sempre existiu onde envolve a luta pelo poder. Mas no Brasil, onde a ambição e a corrupção sempre encontravam campo vasto para florescer, a cada dia mais é impossível não protestar justiça e decência.Num país onde as diferenças sociais são muitas e enormes, isso tudo é inadmissível, primeiro por questões históricas, quando episódios semelhantes deveriam servir de paradigma para que não se repetissem, segundo porque brada a ira dos céus o rio de dinheiro que corre a desaguar nas contas dos poderes, enquanto programas voltados para a saúde, educação e assistência social, principalmente, são entravados ou se arrastam devido à burocracia legal. Quanto se poderia ter sido feito por essas áreas com esse dinheiro?! Mas, pensando bem, conforme um sábio adágio como tudo o que é mal conseguido, é mal sucedido, melhor esse dinheiro espúrio não tenha vindo infectar mais ainda a chaga social, purulenta, que tanto incômodo causa à estrutura étnica brasileira, pois estaria contaminando muitas instituições sérias, honradas, com o câncer da corrupção. Assim, todos soçobrariam nesse rio de lamas que se formou e que, até há pouco, corria silencioso nas galerias subterrâneas da política. Só que, como “nada fica encoberto sob o sol”, esse esgoto escoa agora a céu aberto e todos podemos execrá-lo.
17/08/2005

Em busca da paz

Desde que o mundo é mundo, a intranqüilidade tem sido um empecilho para o reinado da paz, seja ela interior ou social, em decorrência, ora do amor próprio, ora da ambição, nunca por causas elevadas. Refiro-me à intranqüilidade porque todo tipo de desordem provoca esse sentimento ou proporciona uma situação tal. A ambição teria causado a revolta na coorte angélica, precipitando-se Lúcifer e seus asseclas no mundo das trevas; talvez, daí, a origem sobrenatural das duas forças que pugnam na consciência dos homens: o bem e o mal. Impossibilitado de conter esse conflito interior, capaz de mover suas virtudes e de exaltar suas fragilidades, o homem exterioriza seus sentimentos, até por meio de seus atos físicos. E o mais remoto relato de uma exteriorização do amor próprio culminou com um fratricídio: Caim matou seu irmão Abel por inveja e orgulho. Paradoxalmente, a primeira fraternidade gerou tragicamente a primeira briga familiar, a primeira guerra civil e mundial. Ficaria sua descendência estigmatizada e, vez por outra, esse instinto irracional, capaz de seduzir as faculdades racionais, voltaria a inflamar-se, para prejuízo da paz.
Santo Agostinho define a paz como tranqüilidade da ordem. Havendo ordem, que, por sua vez, gera a tranqüilidade, haverá a paz, o que se verifica em todos os campos. Esse trinômio "ordem, tranqüilidade, paz" deve ser constante no espírito, na família, na sociedade e, mais além, nas relações diplomáticas entre os países. Mas para obter essa paz a consciência deve estar bem com Deus, imperando a razão sobre os sentidos e paixões, mantendo, assim, a ordem e a tranqüilidade da alma. Então, sentir-se-á a paz do espírito, que é uma sensação de bem-estar interior, a verdadeira felicidade. Gozando desse estado, cada um torna-se capaz de trescalar, também, esse sentimento em família e no convívio social, impregnando a todos com esse resedá que é um dos legados divinos mais preciosos, senão o maior, após a Eucaristia: "Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz...". E essa paz conquista-a com a prática das virtudes cristãs, como a humildade, a caridade, o perdão, a fortaleza, a paciência, a prudência, a justiça etc.
Há muito, a paz vem tornando-se uma jóia rara, conquistada apenas por poucos. Conflitos armados pela riqueza, por questões diplomáticas e étnicas, escândalos na política (haja escândalos!), guerrilhas urbanas, desentendimentos nas famílias etc. distanciam-na, cada vez mais, da realidade humana, tornando-a uma quimera. Quantos não a sentiram!O mundo, a partir do momento em que abandona as virtudes cristãs, perde a paz, sublevando-se o império anticristão, dominando o egoísmo, a ganância, o orgulho, a vaidade, a inveja, a ira, enfim, as paixões opostas às virtudes cristãs. Por isso, enquanto o homem mantiver-se armado desses vícios, a paz estará sempre se distanciando, mais e mais. Somente quando determinar-se a acalcanhar as paixões com a prática das virtudes, ele sentirá a paz que tanto busca.
08/08/2005

Verdades à tona

Verifica-se, em nossos dias, um desejo quase que incontrolável de justiça. Querem-na para tudo, a qualquer modo, por qualquer preço, arriscando-se até pelos meandros da injustiça, para salvaguardar essa virtude que deve reger as ações humanas, representando a harmonia e o equilíbrio, tanto pessoal, quanto social. Daí, talvez, sempre esse conceito central ser tentado a interpretações diversas e, se não fosse uma força de origem transcendente, sofreria uma mutabilidade com as influências ideológicas confusas e perversas insistentemente tentando o homem.
O complexo tema, cujos conceitos se estendem por toda a evolução do estudo do pensamento, desde a clássica Grécia, definindo-se melhor no Império Romano e fundamentando-se nos princípios cristãos, dele se lançam mão todos os que querem, custe o que custar, impor-se, por não serem capazes de convencer os demais, ao contrário do que é justo, cuja nitidez e lógica simplesmente ocupam o lugar que lhes cabe no meio. Daquela forma, procederam famigerados pusilânimes ao longo da história da humanidade, revestidos com a couraça, ora da repressão, ora da liberdade, mais além do direito igualitário de todos perante o Estado, em nome dessa primorosa virtude cometeram as mais absurdas atrocidades que, com o tempo, acabaram emergindo nos relatos históricos, desacreditando a ideologia que defendiam e na qual tentavam apoiar o seu sistema.
E uma das mais recentes emersões foi sobre o tão louvado chileno Salvador Allende, um dos ícones dos movimentos esquerdistas, que agora aparece com o epíteto de “anti-semita”. O alvissareiro livro “Salvador Allende, anti-semitismo e eutanásia”, do historiador Victor Farias, a contragosto de muitos e após a resistência de várias editoras chilenas, expõe o passado negro do presidente socialista do Chile.
Allende, como revela o historiador, escrevera em 1933 uma tese chamada “Higiene mental e delinqüência”, propondo a esterilização de doentes mentais, onde se refere pejorativamente à raça judaica, caracterizada “por determinadas formas de delito: estelionato, falsidade, calúnia e, sobretudo, usura”. Mais tarde, quando ministro da saúde do governo do presidente Aguirre-Cerda (1939/1941), defendeu projeto inspirado em uma lei de Hitler, propondo a esterilização especificamente aos doentes mentais que sofressem de esquizofrenia, psicose maníaco-depressiva e alcoolismo crônico. Já presidente do Chile, recusou-se a extraditar o nazista Walter Rauff, inventor do sistema de extermínio em massa com caminhões de gás e responsável direto pela morte de mais de dez mil judeus.Ainda que determinados grupos resistam à boa notícia que o trabalho do Farias nos traz, desmistificando a figura do pusilânime líder esquerdistas que, arraigado ao orgulho e ao amor-próprio, findou-se ao ver arruinado o seu sistema, mais uma vez a justiça acena à verdade histórica que emerge de um lodaçal de falsas vítimas, de enganações sociais e de ilusões políticas no império de mentira que a esquerda sempre tentou impor aos povos.
01/08/2005

Mês de maio, Mês de Maria

Apesar da azáfama do dia-a-dia, há instantes em que o homem parece retirar-se desse cenário tumultuado e buscar uma forma de alento para seu ânimo, muitas vezes fragilizado por uma apostasia que vai se generalizando em todos os meios. E o mês de maio é um desses momentos propícios à interiorização, a partir de simples reminiscências, parecendo ouvir-se, ainda, ao longe, o toque de um sino, sentir um aroma de sacralidade e até o burburinho de crianças alegres e ansiosas parece tomar conta do ambiente de sua imaginação. É o mês de maio, dedicado à Virgem Maria.
É provável que uma das primeiras oportunidades que se tem nesta vida para desenvolver a espiritualidade nos seja dada ainda na infância. E as celebrações do mês de maio são uma delas, seguramente. A princípio, é apenas o momento de se prestar homenagens à Medianeira de todas as graças, muitas vezes até cumprindo um capricho dos pais, uma herança que vem passando de geração a geração. Mas, ao meditar a grandeza do momento, ver-se-á que nada mais é do que a expressão sincera do que um católico espera: poder um dia contemplar, no páramo, a doce mãe, advogada dos pecadores. E a nenhuma criança pode ser tirada essa oportunidade terrena, de coroar a Virgem Maria, assim como desejaria coroá-la no céu.
Naquele momento em que todo esse anseio e essa alegria pueril se transluz nas figuras pequeninas que, vestidas a caráter, levam seu tributo a Maria, tudo tem um significado. Desde a procissão que caminha ao altar preparado para o ato, significando a caminhada da humanidade em busca da Perfeição, até as balas e doces distribuídas no fim (tão combatidas), cujo significado, para aquelas crianças, nada mais é do que as graças que Deus as concede, por intercessão de sua Mãe Santíssima.
O Mês de Maio foi instituído pelo papa Pio VII, em 21 de março de 1815. Na diocese de Mariana, foi introduzido pelo santo bispo dom Antônio Ferreira Viçoso. As primeiras coroações se realizaram naquela arquiespiscopal cidade, por volta da década de 1840, introduzidas que foram pelas Filhas de São Vicente de Paulo, que trouxeram o costume da França. Em 1882, dom Antônio Maria Correia de Sá e Benevides, que sucedeu a dom Viçoso, reorganizou e restaurou as celebrações de maio.
Em nossa região, ainda se tem a oportunidade de assistir às celebrações de maio. Nas diversas paróquias da cidade, diariamente, acontece a coroação de Nossa Senhora, com orações, cânticos, enfim, uma série de manifestações. Enquanto o mundo avança em seu curso natural, ainda se pode parar por um momento e mergulhar nesse ambiente, até certo ponto de nostalgia, e relembrar aqueles momentos que só a percepção, ainda que limitada, de uma criança pode descrever, como tão bem se expressou o maestro queluziano José Maria da Rocha Ferreira, ao recordar os meses de maio de sua infância:
"Mês de Maria!... Chusmas de anjinhos...
sons de órgãos... Espirais de incenso...
E a Virgem a sorrir
do alto do trono...

No coro, embriagam-me de misticismo
Donzelas a cantar:
'Queremos a Maria
Flores oferecer.'

Mês de Maria!... - teus arcanos mistérios
aceleram, em meu peito, as pulsações do coração
emocionado...

Quando saí da igreja, mãos dadas com minha mãe,
os zéfiros noturnos absorviam as
últimas volutas fugidas
dos incensários oscilantes.

E hoje - tantos anos após! - os ecos
Ainda repetem:
'Queremos a Maria...
queremos a Maria...flores oferecer'."
19/05/2005

Habemus Papam

Ecoou por toda a praça de São Pedro, na tarde do dia 19 de abril, o anúncio da eleição do novo papa da Santa Igreja Católica. Às palavras pausadas do cardeal camerlengo, ouvidas ansiosamente por todos os que ali se encontravam ou acompanhavam as transmissões através dos meios de comunicação, seguiu-se uma ovação em todo mundo, ao anunciar “com grande alegria” que o cardeal Joseph Ratzinger fora eleito para ocupar a cátedra de Pedro.
Embora os prognósticos, melhor dizendo, as especulações indicassem o nome de Ratzinger como o mais provável sucessor de João Paulo II, sua idade, sua nacionalidade e, principalmente, sua ortodoxia colocavam-no, humanamente falando, em desvantagem. É aí que nos convencemos da ação do Espírito Santo. O respeitado e temido prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício) não se elegeria pela simples simpatia que pudesse transmitir aos seus irmãos do Colégio Cardinalício, muito menos pelo fato de ter gozado do apreço do Pontífice morto, justamente no momento em que os mais afoitos, inclusive alguns cardeais, aguardavam mudanças na posição da Igreja, como se isso fosse possível. Ora, a doutrina é a mesma, desde que foi ensina por Cristo e transmitida pelos apóstolos, considerados depositum fidei, portanto imutável. Ela se aplica a todos os tempos, mas não se a interpreta segundo a moda, aliás, como o então cardeal Ratzinger afirmou ao presidir a Missa pro eligendo Summo Pontífice, na abertura do Conclave.
A eleição do decano dos cardeais, à primeira vista, pode parecer uma estratégia: elege-se um papa mais velho para que seja de transição, o que não é lá muito certeiro esse entendimento, haja vista a última vez em que isso ocorreu, quando Ângelo Ronccalli foi eleito para suceder a Pio XII – o Pastor Angelicus que seduziu toda a cristandade em meados do século 20, ao contrário do que se esperava, João XXIII procurou revigorar a Esposa Imaculada de Cristo ao convocar o 2º Concílio Ecumênico.
E isso se espera, agora, do Santo Padre o Papa Bento XVI. A começar pela escolha de seu nome, que, historicamente, resgata o quase esquecido último papa Bento, que reinou de 1914 a 1922, em meio a deflagração da 1ª Guerra Mundial. O italiano Giacomo della Chiesa, mesmo com as aflições dos anos de beligerância no velho mundo, incentivou as comissões de estudos bíblicos, promoveu as tratativas diplomáticas com vários países, inclusive a reaproximação, com sucesso, da Inglaterra e França, e avançou os primeiros passos que culminaram com o Tratado de Latrão, que criou o Estado do Vaticano. Outra grande obra de seu pontificado foram as missões aos países não católicos, levando o Evangelho de Cristo a milhares de pagãos.
O múnus do novo Papa, além do que lhe compete como Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Patriarca do Ocidente, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropolita da Província Romana, Soberano do Estado da Cidade do Vaticano e de Servo dos Servos de Deus, é, neste momento, o de assegurar a ortodoxia da Igreja, norteando todas as soluções que devam ser buscadas para os problemas do mundo moderno.Deus guarde o Papa Bento XVI!
19/04/2005

O Papa

Causou incontida emoção, em todo o mundo, a morte do Santo Padre o papa João Paulo II, ocorrido na noite do dia 2 de abril. Os dobres fúnebres das campanas vaticanas ecoaram-se por todo o orbe, ponde-se os cristãos, genuflexos, a orar pelo descanso eterno do Pai da Cristandade, enquanto monarcas e governos, instituições diversas, até aqueles que lhe pareciam hostis, reverenciaram um dos grandes pontífices da Igreja, cujo nome perpetuar-se-á na história, não apenas pelo sensacionalista terceiro maior pontificado ao longo de quase dois mil anos, mas notabilizado por peregrinações pelo mundo, quando o cativante Pastor se aproximava mais de seu rebanho, conquistando-o, primeiramente, pelo idioma e ocupando-se com os problemas do mundo moderno, mais ainda com aqueles que afligiam as almas que lhe foram confiadas. Em seus discursos, cartas, encíclicas etc, atestava o empenho em conduzir a humanidade dentro dos lídimos princípios do catolicismo, atentando-a para os valores primordiais que devem norteá-la, cuja conseqüência haveria de ser um convívio humano próspero e feliz em Cristo, encaminhando o homem à prática da virtude e à salvação eterna.
De uma cultura amplíssima, parecia não existir um ramo do saber que lhe fosse estranho. Embora soberano da Corte mais antiga do mundo, o que marcaram sua vida foram sua bondade, a retidão de sua conduta, a solidez de seus princípios, a coerência de suas atitudes, a sinceridade com que procurava o bem de todos, além do halo sobrenatural que o circundava. Por isso, a tristeza que sua ausência causa a todos, de repente torna-se alegria, ao concluirmos termos vivido sob o governo de um lídimo Vigário de Cristo, em quem vimos a realização da promessa do Divino Mestre: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”.
Então vemos a grandeza desse que, tirado dentre os homens, com todas as suas fragilidades, é levado ao altar, ornado com a graça do sacerdócio, depois em sua plenitude e, por fim, elevado à cátedra de São Pedro, inserido numa série ininterrupta que vem do Príncipe dos Apóstolos. Ficaria Pedro sem sucessor legítimo, teria a Santa Igreja naufragado em meio as divisões humanas, falhara a promessa de Cristo, se não fosse a presença do papa, confirmação dessa promessa. Essa participação à missão divina do Salvador é inseparável da pessoa de seu Vigário na Terra, donde provém a esperança do povo católico de que um digno sucessor de Pedro seja entronizado, a quem possa contemplar, com amor e confiança, o guia de suas almas nos caminhos da vida eterna, ardente anelo dos que peregrinam neste Vale de Lágrimas.Ao reverenciarmos à memória do Santo Padre o papa João Paulo II, reconhecemos que sua morte é como o apagar de uma luz de brilho singular, que aquecia e iluminava o mundo. Mas a glória maior de seu pontificado esconde-se na santificação daqueles que estiveram sob sua tutela espiritual. Esta, sim, a glória inefável da Santa Igreja, por dentro, na vida da Graça. Por isso “sua memória permanecerá em paz” e ele viverá eternamente.
07/04/2005

Cousas de antanho

A Igreja Católica vive, nesta época do ano, o Tempo da Quaresma. É um tempo em que os fiéis são convidados à prática da penitência, à conversão, à santificação, enfim, um tempo que revivifica as almas, reconduzindo-as às fontes abundantes da vida.
Além dos exercícios de piedade que a Santa Igreja aconselha para durante a Quaresma, outros, oriundos da devoção popular e preservados ao longo dos séculos são praticados pelos católicos. Um desses costumes, pouco conhecido em nossos dias, é o da Encomendação das Almas, que se fazia durante as sextas-feiras deste tempo litúrgico.
Essa tradição vinda dos países ibéricos tinha por finalidade rezar pelas almas do Purgatório. Por se tratar de um ritual para-litúrgico, era feita sem a presença do clero, sendo mantida apenas por leigos. A cerimônia iniciava-se no portão de algum cemitério e, durante o percurso da procissão que se formava, faziam-se sete paradas, entre cemitérios, igrejas ou oratórios, cruzeiros e encruzilhadas. No local, tocava-se a matraca, convidando os presentes ao silêncio e para acordar os que estivessem em casa dormindo, chamando-os para rezar pelos mortos. Em seguida, o coro (geralmente eram os músicos quem organizavam essas encomendações) cantava uma música cuja letra pedia oração pelos mortos, seguindo-se a recitação do "Réquiem æternam dona eis, Domine..." (Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno...). Novamente tocava-se a matraca e o préstito se deslocava para outro lugar.
Desse ritual lúgubre, que não ficou isento de lendas e superstições, apenas os homens participavam, cobertos de alvas túnicas e encapuzados. No coro, as partes de vozes femininas eram cantadas por um menino cantor, fazendo o tiple, e um tenor em falsete fazia a parte de contralto.
Em Minas, onde a Encomendação das Almas foi muito difundida no século 18, fizeram até música própria para esse ritual. O capitão Manoel Dias de Oliveira, falecido em 1813 na Vila de São José del Rei, numa harmoniosa peça a 4 vozes, com acompanhamento de madeiras, trompas e baixo, usou o seguinte texto: "Alerta, mortais! Alerta! / Que é tempo, como está visto, / Que a paixão de Jesus Cristo / Sua morte faz lembrar. - E porque duvidais, / Como é certo, mandar Ele / Que oreis por todo aquele / Que ele veio libertar. - Lembrai-vos daqueles / Que, em pranto desfeito, / Já sentem o efeito / Da triste agonia. - Dai-lhes, por piedade, / O socorro vosso / Por um Padre-nosso e Ave-Maria".
Em nossos dias, já não se conhece mais esse tipo de sufrágio pelas almas, senão nos lugares onde ainda conservam essa tradição. Sua prática, também, não mais impressiona as pessoas, como naquela época em que elas, desprovidas de luz elétrica, eram acordadas no meio da noite pelo som da matraca, pelo murmúrio da reza e o plangente canto. Essa cena tétrica deu origem a muitas delas. Uma delas conta que uma certa pessoa, não contendo sua curiosidade e correndo à janela para ver o que se passava na rua, teria recebido, de um dos acompanhantes do cortejo, uma vela. Percebendo, somente no dia seguinte, que recebera uma canela de defunto...Coisas de antanho que se vão perdendo com o tempo.
01/03/2005

A questão da violência

Diariamente, convivemos com violências de todos os tipos. Atinge-nos uma violência social em decorrência do que nos impõe o meio em que vivemos. Essa violência social pode gerar uma violência moral, levando muitas vezes a pessoa ao auto-extermínio. Também tem a violência cultural, de tendências religiosas e ideológicas que sempre fizeram muito mal, arrastando seus sequazes pelos nemorosos caminhos do fanatismo, aprisionando-os, conseqüentemente, nos ergástulos infectos da limitação intelectual. Todas essas violências com as quais, repito, convivemos diariamente, acabam por externar uma agressão aos valores. Assim, temos roubos, assaltos, assassinatos, suicídios, seqüestros, estelionatos, estupros, assédios, mentiras, dentre uma considerável gama de atos que se qualificam como violência contra si próprio ou contra o próximo.
Seria, até certo ponto, uma atitude cômoda pensar: "Violência sempre existiu, em todas as suas formas". De fato, nos primeiros tempos bíblicos, a história já registra a desobediência, a mentira e o fratricídio. Numa interpretação ascética, Deus Nosso Senhor, além do livre-arbítrio concedido, permite ao homem de bom senso o julgamento de seus atos, dando-lhe a conhecer o que é certo e o que é errado. Erro nenhum justifica outro. Por isso, é preciso conter, de alguma maneira, essa violência galopante que impera em meio à humanidade. Às vezes, não é preciso olhar para São Paulo, Rio de Janeiro ou até mesmo Belo Horizonte para nos horrorizarmos com os índices de violência. Não! Basta ver ao nosso redor.Atitudes emergenciais que o governo federal venha a tomar não passarão de paliativo para essa enfermidade social. O investimento na educação ajuda, mas não resolve o problema, ademais seu reflexo só será nítido no futuro, isso se a fumaça da corrupção não a embaçar. Para tentar se resolver a questão da violência, tem que se começar em cada um. Cada pessoa deve se conscientizar, a partir daí promove-se a conscientização de um grupo, de uma elite, da sociedade. Assim, as atitudes certamente alcançarão um grau decente de coerência, refletindo-se no procedimento do homem, na legislação de um país e, mais abrangente, fluente no meio educacional e social; enfim, uma sociedade quase perfeita. Pode parecer uma utopia, bem ao estilo de São Tomás Morus, mas, certamente, dessa forma, as coisas seriam bem diferentes. E, se lembrarmos ainda que o problema da violência numa cidade é um reflexo do problema do Estado, que por sua vez é uma parcela do que se passa no país e, conseqüentemente, no mundo todo, talvez criemos coragem para começar, cada qual, a fazer nossa parte. Quem sabe, um dia, a humanidade já não será vassala dessa violência assustadora!?
30/12/2004

Triste realidade

As constantes informações, principalmente aquelas obtidas através da imprensa, além dos episódios testemunhados por todos, mostra-nos um quadro crescente da violência em todo o mundo, cujos reflexos, senão indícios primários, já se verificam em nossa cidade. A partir daí, conseqüentemente, somos levados à meditação sobre a realidade das cadeias públicas e penitenciárias do país. Infelizmente, essas instituições não passam, como sempre o foram, de despejos de homens facínoras, delinqüentes, celerados, corruptos, pusilânimes etc, mas são homens. Ainda que autores das mais terríveis atrocidades, são seres humanos. Às vezes, o trabalho de agentes da Pastoral Carcerária e de órgãos de defesa da dignidade humana são mal compreendidos, só que eles procuram exercer uma função que caberia a toda a sociedade; no entanto, a situação moralmente caótica, só tentam remediá-la quando já avança em estágios finais.
A realidade cá fora, no Brasil, já é de um verdadeiro clima de guerra civil. O povo só não deu conta disso, ou não quis admiti-lo, porque ainda há o futebol, samba, cerveja gelada e novela das oito (que hoje é das nove). Mas um Estado onde não se respeita a autoridade policial, muitas vezes porque ela também não zelou pelo seu caráter de proporcionar a segurança pública, isso, por sua vez, em decorrência da falta de sua própria segurança e de salários dignos, vendo-se, portanto, por aí, que a máquina social está se desgastando cada vez mais, causando toda essa desordem no país, está prestes a uma autodestruição. Ainda assim, nenhuma providência enérgica contra os infratores da ordem é tomada.
Quando esses infelizes são detidos e jogados no submundo dos ergástulos, eles se vêem e sentem as conseqüências desses infernos da sociedade. Nas prisões se misturam as classes (exceto os que têm curso superior), passam dias e anos entre quadro paredes criminosos de todos os tipos, podendo estar lado-a-lado o ladrão de galinha e o estuprador; o assassino e o estelionatário; a prostituta e o maníaco. Como se espera a recuperação dessas pessoas, para que possam vir a se reintegrar na sociedade após “pagarem” sua pena? Na maioria dos casos, o sentimento que nutrem 24 horas por dia é o de vingança e o de como fazer para sair dali. Entre eles não há nenhum respeito. A tensão de seus ânimos se inflama ainda mais com as condições em que vivem. Não há perspectiva de recuperação na maioria das cadeias públicas e penitenciárias do Brasil, se mantiverem o sistema obsoleto e desumano que ainda vigora.
Em meio a esse quadro sombrio e, de certa forma, desolador, por vezes, alguma voz se alça pedindo mais justiça, propondo a pena de morte. Vale lembrar, por isso, um episódio que se passou no interior de Minas, numa das últimas execuções de pena de morte, ainda nos tempos do Império do Brasil. Um detento de uma cadeia pública havia matado um companheiro de cela por causa da comida, que estava racionada. O assassino foi levado a julgamento e condenado à morte. No dia da execução, um sacerdote, ao proferir o sermão antes do enforcamento, lembrou que aquele homem seria enforcado vítima de seus desvarios, e estes em conseqüência da falta do respeito que o Estado deveria devotar àquela criatura. Ele matou porque tinha fome, na luta pela sobrevivência, e ele tinha fome porque não lhe davam de comer. A pena de morte só poderia ser aplicada num estado que estivesse imune de qualquer erro em sua organização, imune de qualquer falha em sua integração. Ora, um estado imune de qualquer erro ou falha é um estado perfeito. Logo, a um estado perfeito não há o que corrigir, portanto não se aplicaria a pena de morte. Subentende-se, então, que a pena de morte é inconcebível, principalmente na presente situação.O homem, carente de afetividade, por pior que seja, sem respeito e sem caridade jamais se recuperará. E é a isso que os agentes da Pastoral Carcerária se propõem, levar conforto espiritual e uma palavra de incentivo, para que consigam suportar o sofrimento que lhes visita nas prisões, preparando-se para se reintegrarem à sociedade. Ao Estado, caberia uma reformulação do sistema penitenciário. Há diversos graus de delinqüência e isso deveria ser meticulosamente observado para que se alcançasse um índice maior de recuperação desses seres humanos.
26/11/2004

A liberdade de imprensa

Os difíceis dias vividos pelos meios de comunicação em geral, principalmente em épocas de restrições políticas, são como tônicos que revigoram mais ainda a fibra daqueles que vivem em busca da notícia para ajudar na formação de uma sociedade conscientemente mais justa, informando sobre a verdade dos fatos. "... E quantos mais morriam, mais tinham vontade de morrer", assim descreveu Mme. Martin Piel a bravura dos primeiros cristãos que professavam sua fé nas arenas romanas. Com semelhante destemor, a história registrou muitos homens, hoje vistos como heróis, enquanto naquela época talvez não passassem de loucos que, por uma causa maior, venceram barreiras e conquistaram ou, pelo menos, fizeram valer seus ideais.
O ideal que impulsiona o profissional da área de jornalismo é, simplesmente, dar a notícia de maneira clara e imparcial. E é por esse ideal que ele enfrenta dificuldades pessoais e sociais, mas suporta tudo pela dedicação, responsabilidade e respeito para com seu trabalho e por acreditar que, fazendo sua parte, a sociedade estará tendo mais uma oportunidade para trabalhar nesse aprimoramento da caminhada de todos na construção do todo. Seria interessante se todos tivessem um discernimento criterioso sobre a missão daqueles que informam e a missão que devem desenvolver aqueles que foram informados. Certamente, o mundo seria outro.Mas tanta digressão, quase chegando ao limiar de devaneios utópicos, se justifica nas diversas vezes em que o profissional desta are, no exercício de seu trabalho, é constrangido por causa da inconseqüência de pessoas que, muitas vezes incapazes de conter seus ímpetos, querem descontar nos profissionais da Imprensa todo sua tensão, revolta ou qualquer outro sentimento que lhe altere os ânimos. É preciso que as pessoas, mesmo nas horas mais difíceis, busquem analisar com clareza os fatos, preservando, desta forma, seu autodomínio, até mesmo sua capacidade de raciocínio. A experiência vivida por alguém, seja ela boa ou má, é exemplo para todos. O sucesso e o fracasso são episódios constantes na vida do homem; com eles devemos aprender a conviver. E só o conseguiremos através de nossas próprias experiências e as de outrem. Por isso é necessária a divulgação dos fatos, a veiculação de informações, para que o homem cresça em si (na sua formação) e na sociedade. Os meios de comunicação, sejam eles de forma escrita, falada ou televisiva, estão a serviço da comunidade e, enquanto estiverem trabalhando para noticiar de maneira clara e imparcial, como já foi dito, ninguém tem o direito de tolher essa liberdade da Imprensa.
29/10/2004

A Raimundo Correia

Nas três últimas décadas do século 19, o Brasil passou por uma ebulição cultural, transformando todos os segmentos da sociedade, com grande destaque para as áreas política, ideológica e literária. Transformações, essas, benéficas, num certo sentido, mas, por outro lado, catastróficas. Benéficas ao deparar-se com a geração de então se levantando em busca da concretização de seus ideais, ao contrário de nossos dias, quando vemos, com raras exceções, a juventude estagnada, alheia a tudo o que a rodeia, senão à satisfação pessoal e de seus instintos, debruçando-se sobre o seu “eu”, genuflexa ante às baixas imposições da natureza humana, buscando os subterfúgios que lhe servem de apoio, entrando, assim, num processo de alienação de si em favor das paixões e dos vícios, num labirinto onde se perdem e se deparam com o amor-próprio e com o desamor.
Voltando à realidade do final da centúria oitocentista, as transformações maléficas teriam sido a exaltação do Naturalismo, do Positivismo e do Racionalismo, principalmente nos meios acadêmicos, rendendo, àquela época, o epíteto de “a Renascença Brasileira”. Contudo, não se pode olvidar os tantos vultos que se sobressaíram no cenário sócio-cultural daqueles dias, oriundos de todos os quadrantes destes brasis, concentrando-se nos principais centros de então: Rio de Janeiro e São Paulo; esta, por ser um forte campo acadêmico com notável vocação para o nacionalismo, como atestara o passado e comprovara o futuro; aquela, por ser a Corte e, depois, capital da República, para onde convergiam, naturalmente, todos os valores.
Nessa época, em que a Literatura liquidava o Romantismo, cedendo-se ao fascínio do Parnasianismo, é que surge o admirável Raimundo Correia, que, com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, formara a “trindade parnasiana”. E o sensível humanista e inspirado poeta não escapara à regra. Tendo, ao início, deixado se levar pelo Romantismo, não tardou deixar se seduzir pela “Idéia Nova” em voga (aliás, que ele cantou em versos), até se consagrar no Parnasianismo como “o maior artista do verso” no Brasil.
Melancólico, às vezes descrente (senão frustrado em seu íntimo), sua pena espelhou uma tristeza interior, um sofrimento profundo e suas considerações acerca da transitoriedade da vida e das coisas. Tudo lhe parecera ser passageiro, ser desilusão, nada de bom existira, talvez, no pensamento desse poeta-filósofo, enquanto suas atitudes atestavam extraordinária pureza e bondade, conforme relatam seus biógrafos, a ponto de Afrânio Peixoto cognominá-lo “São Raimundo”. E de um de seus mergulhos ao seu interior nemoroso, quiçá tenha emergido “Mal Secreto”, concluindo que:
“Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”
Ou num dos instantes de desilusão deixara escapar-lhe no papel “Vulnus”:
“Com bons olhos, quem ama, em torno tudo vê!
Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;
A crença doira e azula o círculo que o cinge;
Da volúpia do bem o grau supremo atinge!

Eu também atingi esse supremo grau:
Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau!
E as culpadas sois vós, visões encantadoras,
Virgínias desleais, desleais Eleonoras!

Minha alma juvenil, ígnea, meridional,
Num longo sorvo hauriu o pérfido e letal
Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!

A vossos pés rasguei tantos castelos! Tanto
Sonho se esperdiçou! Tanta luz se perdeu!...
Amei: nem uma só de vós me compreendeu!”Certo é tudo o que lhe tocara o sentimento ou se desenrolara em seu raciocínio foi tema para os versos desse poeta que sentiu-se feliz e amado, mas cuja felicidade o desanimava, cujo amor o constrangia (in “Incoerência”).
21/10/2004

Às vésperas da eleição

Às vésperas de mais um pleito, torna-se oportuno meditar sobre a realidade política de Conselheiro Lafaiete. É bem provável que só no futuro entenderemos o processo social e político pelo qual passamos, isso se houver uma firmeza ideológica nas pessoas, nos empreendimentos, nas instituições, o que muitas vezes parece não existir. A falta de convicções, de uma linha de raciocínio que bem defina e justifique o desenrolar de um acontecimento, de uma luta para o bem da comunidade, pode parecer debalde para o crescimento social, inda que não o seja. E isso pôde-se constatar ao longo de toda a campanha eleitoral, mormente nas últimas semanas, quando o desespero em assegurar a vitória nas urnas levou alguns candidatos a lançarem mão de todos os argumentos e artifícios, até dos mais baixos.
Dizer que os políticos locais nada fazem pela cidade, que as diversas instituições trabalham apenas para um beneficiamento particular e restrito, que as pessoas não buscam participar ativamente do desenvolvimento a atingir o bem comum, seria injusta afirmação. De fato, os políticos têm feito muitas benfeitorias para a cidade, as instituições, em seus diversos setores, também vêm trabalhando em prol do desenvolvimento de Lafaiete e a comunidade, por sua vez, não se omite e, pelo que se vê, procura colaborar nas diversas circunstâncias. Entretanto, cada qual a seu modo. Aí, então, é que se encontra o motivo de toda a leviandade do sistema que move as atitudes no dia-a-dia. O que no início parecia ser inconsistente, hoje tomou um certo impulso e, sem ser consistente, move a atual engenhoca social.
Isso tudo pode parecer divagações em torno de temas complexos e opiniões variadas, mas é o motivo que faz do Estado e, em nosso caso, do Município uma mera circunscrição administrativa; das instituições, clubes de livres pensamentos sem ameaçar a integridade do Estado, já que ele não passa, como já dissemos, de uma mera circunscrição administrativa e comprometida com as instituições, cujos membros de um e de outro se alternam; enfim, o povo é sempre o povo, jamais se levanta, senão impulsionado pelas instituições quando se sentem em perigo e cedem a vez ao povo, para que este vá iludido clamar pelos direitos daquelas, pensando ser os dele.
A cartilha é uma só para todos, a cartilha iluminista; e para se mostrarem intelectuais e sem compromisso com qualquer corrente ideológica, qualquer credo ou cultura, muitas vezes declaram com ela: "nossa finalidade é a difusão da cultura, combater a existência de dogmas e preconceitos religiosos, econômicos, políticos, morais e sociais em que se baseia a ignorância que retarda a realização das aspirações que norteiam os povos". No entanto, seus princípios se confundem e contradiz essa sentença com uma significativa diferença: o que abominam muitas vezes é a verdade, preferindo a mentira por ser o que melhor lhes convém. Em suma, é unicamente uma luta pelos direitos e interesses particulares.
E a campanha eleitoral de 2004, com a exceção de alguns candidatos, foi o espelho que refletiu tudo isso, principalmente o interesse particular. Os eleitores foram, mais uma vez, desrespeitados, enquanto alguns candidatos brigavam para assegurar o cobiçado cargo a que se apresentam, dando um público testemunho da mediocridade a que servem, do sentimento pequeno, sustentado pelo amor-próprio, em prejuízo para Lafaiete e para os lafaietenses. Que o povo tenha consciência e não se deixe levar pelo “canto da sereia” de alguns candidatos que tentam iludi-lo com promessas (e ainda a fazem!) imbecis, com críticas infundadas e argumentos sem lógica.
30/09/2004
Às vésperas de mais um pleito, torna-se oportuno meditar sobre a realidade política de Conselheiro Lafaiete. É bem provável que só no futuro entenderemos o processo social e político pelo qual passamos, isso se houver uma firmeza ideológica nas pessoas, nos empreendimentos, nas instituições, o que muitas vezes parece não existir. A falta de convicções, de uma linha de raciocínio que bem defina e justifique o desenrolar de um acontecimento, de uma luta para o bem da comunidade, pode parecer debalde para o crescimento social, inda que não o seja. E isso pôde-se constatar ao longo de toda a campanha eleitoral, mormente nas últimas semanas, quando o desespero em assegurar a vitória nas urnas levou alguns candidatos a lançarem mão de todos os argumentos e artifícios, até dos mais baixos.
Dizer que os políticos locais nada fazem pela cidade, que as diversas instituições trabalham apenas para um beneficiamento particular e restrito, que as pessoas não buscam participar ativamente do desenvolvimento a atingir o bem comum, seria injusta afirmação. De fato, os políticos têm feito muitas benfeitorias para a cidade, as instituições, em seus diversos setores, também vêm trabalhando em prol do desenvolvimento de Lafaiete e a comunidade, por sua vez, não se omite e, pelo que se vê, procura colaborar nas diversas circunstâncias. Entretanto, cada qual a seu modo. Aí, então, é que se encontra o motivo de toda a leviandade do sistema que move as atitudes no dia-a-dia. O que no início parecia ser inconsistente, hoje tomou um certo impulso e, sem ser consistente, move a atual engenhoca social.
Isso tudo pode parecer divagações em torno de temas complexos e opiniões variadas, mas é o motivo que faz do Estado e, em nosso caso, do Município uma mera circunscrição administrativa; das instituições, clubes de livres pensamentos sem ameaçar a integridade do Estado, já que ele não passa, como já dissemos, de uma mera circunscrição administrativa e comprometida com as instituições, cujos membros de um e de outro se alternam; enfim, o povo é sempre o povo, jamais se levanta, senão impulsionado pelas instituições quando se sentem em perigo e cedem a vez ao povo, para que este vá iludido clamar pelos direitos daquelas, pensando ser os dele.
A cartilha é uma só para todos, a cartilha iluminista; e para se mostrarem intelectuais e sem compromisso com qualquer corrente ideológica, qualquer credo ou cultura, muitas vezes declaram com ela: "nossa finalidade é a difusão da cultura, combater a existência de dogmas e preconceitos religiosos, econômicos, políticos, morais e sociais em que se baseia a ignorância que retarda a realização das aspirações que norteiam os povos". No entanto, seus princípios se confundem e contradiz essa sentença com uma significativa diferença: o que abominam muitas vezes é a verdade, preferindo a mentira por ser o que melhor lhes convém. Em suma, é unicamente uma luta pelos direitos e interesses particulares.
E a campanha eleitoral de 2004, com a exceção de alguns candidatos, foi o espelho que refletiu tudo isso, principalmente o interesse particular. Os eleitores foram, mais uma vez, desrespeitados, enquanto alguns candidatos brigavam para assegurar o cobiçado cargo a que se apresentam, dando um público testemunho da mediocridade a que servem, do sentimento pequeno, sustentado pelo amor-próprio, em prejuízo para Lafaiete e para os lafaietenses. Que o povo tenha consciência e não se deixe levar pelo “canto da sereia” de alguns candidatos que tentam iludi-lo com promessas (e ainda a fazem!) imbecis, com críticas infundadas e argumentos sem lógica.

Neopaganismo

Vivenciamos, em nossos dias, um novo renascimento; o renascimento do paganismo. E, através desse fenômeno, contatamos, cada vê mais, uma decadência social, decorrente da perda de valores, ou desvalorização dos princípios.
Situação semelhante viveu a humanidade nos séculos 15 e 16. O Renascimento de então, esforçando-se para restaurar as riquezas das antigas culturas pagãs, particularmente a cultura e a arte dos gregos, conduziu à exaltação exagerada do homem, da natureza e das forças naturais. Exaltando a bondade e o poder da natureza, menosprezava-se e fazia-se desaparecer do pensamento dos homens a necessidade da graça, a destinação da humanidade para a ordem sobrenatural, a luz trazida pela Revelação.
Com isso, desencadeou-se um desagregamento profundo na cristandade, possibilitando circular pelos bastidores das nações católicas o veneno do naturalismo político e social, logo, logo, alcançando as universidades, atingindo os “filósofos das luzes”. Estes últimos imaginavam um estado de natureza que nada tem a ver com o realismo da filosofia cristã, culminando com o mito do “bom selvagem”, de Jean Jacques Rousseau. Assim, fica a lei natural reduzida a um conjunto de sentimentos que o homem tem de si mesmo e que são compartilhados pela maior parte dos outros homens.
Na ânsia de emancipação em relação a Deus e à sua Revelação, o homem cortou as ligações com os princípios da ordem natural, separou a fé e a razão. Ora, ensina o Magistério da Igreja que “a reta razão demonstra as bases da fé e, esclarecida por ela, cultiva a ciência das coisas divinas; e a fé, por sua vê, livra e defende a razão dos erros e lhe proporciona inúmeros conhecimentos” (Const. De Fide Catholica, “Dei Filius”, D nº 1.799). Mas isso gerou a Revolução e, esta, promoveu o liberalismo, o naturalismo e o racionalismo. Deificaram a razão, cavando abismos e levantando muralhas; forjaram uma liberdade, sem os fundamentos da verdade. Com este espírito fez-se a Revolução, cujos frutos sazonados a humanidade colhe e saboreia, alimentando a livre interpretação dos valores éticos e morais e dos princípios em que se baseiam.
Essa Revolução é quem advoga a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão, subterfúgio mor para propalar aos quatro ventos os mais absurdos conceitos, contaminando todos os meios sociais, principalmente aqueles sem formação e, pior ainda, sem capacidade de discernimento. E isso pudemos verificar, na última semana, em Lafaiete, quando um templo católico foi tristemente profanado. O autor desse vitupério, segundo suas próprias declarações à imprensa, apresenta-se como um lídimo protótipo de vítima do livre pensamento, sem fundamentos, cognominado arauto do neopaganismo, lamentavelmente por néscia decisão.E, para conforto daqueles que sofrem com essa pública manifestação de decadência ética de nossa sociedade, transcrevo um trecho do sermão proferido pelo cardeal Augusto Álvaro da Silva, em 1927, quando uma igreja, na Bahia, foi profanada e o Santíssimo Sacramento ultrajado: “Meus caríssimos irmãos, não é a vós que me dirijo agora; não, não é a vós. É a Ele, a Jesus Sacramentado! Não é a vós, que sentis também sobre a fronte, vergada ao peso do opróbrio, o raio inflamado da justiça de Deus! Não é a vós, que atirais aos ventos os gemidos de uma aflição sem termo! Não é a vós. É a Ele, no Santíssimo Sacramento! – É a Ti, ó Jesus, realmente aqui sobre este altar, nas mesmas espécies sacramentais em que foste vítima adorável de Teu amor para conosco! É a Ti, Senhor, que se elevam os meus brados de aflição... Nós Te sabemos horrivelmente ofendido na profanação de um dos filhos que me deste, que ousou levantar, contra Ti, mão sacrílega! – Não foi um só o criminoso! Foi meu também. Porque Pastor não fiz chegar, até este infeliz, as vozes claras na presença real... ‘Ai de mim porque calei!’”.

Saudade

Dizem que não se sente saudade, senão daquilo que já conhecera. De fato, a saudade é um sentimento atroz, dorido, um espectro a perseguir todo aquele que a sente. E, quem vive intensamente esse sentimento, acaba mantendo um relacionamento íntimo com ele e esse fantasma se torna amigo; se diagnosticada como uma enfermidade, ela se torna crônica.
Tem-se saudade dos tempos vividos (o vate latino dizia: "Hæc olim meminisse juvabit"), saudade dos parentes e amigos que se foram ou daqueles que estão apenas distantes. Mas a saudade mais pungente é aquele que se sente por quem amou: "Se existe dor no mundo que maltrata / É a dor de ter alguém sem nunca tê-lo...", cantou o poeta; neste caso, de ter alguém sem mais tê-lo.
A saudade de um amor é intensa, às vezes mortal. Sente-a por alguém próximo, mas que está distante; devota-lhe veneração, mesmo sendo vítima da indiferença; e a saudade é quem preenche esse vazio, que continua neste estado de vácuo, não obstante completo de lembranças. Isso, certamente, porque quando se ama - como diz um amigo - tudo se sente ao quadrado: se fica feliz, está exultante; se fica triste, está na agonia da morte.
Ausência e saudade andam juntas, esta em conseqüência daquela. A ausência definitiva, em decorrência da morte, logo se assimila e a saudade alia-se a um sentimento de conformidade com a vontade de Deus. Entretanto, a ausência por uma separação, ainda que seja um desígnio de divino, a separação de alguém de alguém que ama será sempre uma vulnera no âmago, que o tempo poderá até encobri-la com uma pele ressecada, porém sensível, podendo tornar a expô-la ao mais leve toque. E a dor novamente será sentida e o sangue da saudade jorrará em borbotões, intensamente, até que uma nova casca se dorme, susceptível ainda ao mais leve toque, ao ver a pessoa amada, ouvi-la, sentir seu perfume, ou prever sua presença.Melhor seria se toda separação fosse mortal, desta forma seria, ela, sim, definitiva. Pois, às vezes, já não se pode mais tocar a pessoa amada, embora ao meu lado; já não mais falar à pessoa amada, mesmo ouvindo-a; já não mais sentir o seu perfume, apesar exalar-se em todo o ambiente um aroma de sedução; já não mais gozar de sua presença, mesmo estando ao seu lado. Nada mais restaria, senão sorver, até a última gota, o cálice da indiferença e, embriagado pela saudade, perdido no vazio de uma ausência, deixar, levado em devaneios, que se efetue a separação definitiva, mortal... Talvez, assim, poder-se-ia permanecer junto à pessoa amada sem que ela sentisse. Egoísmo? Provavelmente o seja. Importa que essa pessoa amada tenha paz, mas para tê-la o amante teria que estar também em paz. E a paz só se sente próximo de quem ama. Logo...

A esperança

O célebre poeta brasileiro Vicente de Carvalho, em seu "Poemas e Canções" (São Paulo, 1967, página 1), assim canta a "Esperança":
"Só a leve esperança em toda vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência resumida,
Que uma grande esperança malograda."
E a esta quadra o escritor prossegue com o seu soneto, numa fácil e correta observação psicológica, concluindo seus versos de forma melancólica e pessimista.
"Existe, sim; mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca pomos onde nós estamos."
De fato, o homem vive de esperança. Dá-se um rápido e pequeno balanço à nossa própria vida e encontra-se sempre a esperar alguma coisa boa. Melhoria no emprego, saúde, férias, comprar algo que lhe aguça o ímpeto consumista, conquistar a benevolência de outrem ou sua profunda e decisiva simpatia etc. Só com isso, com a esperança, se vive; sem ela tornar-se-ia impossível suportar o pesa da vida.
Por isso, o poeta, depois de bem observar, conclui, amargo, não ser a vida toda, em suma, outra coisa senão "uma grande esperança malograda". Para muitos é assim; mas para outros a vida é mais risonha, oferece bons momentos, atende a alguns anseios. Porém, ao fim, tudo passa. E, o que vem raro, vem como foi sonhado. É aí que Vicente de Carvalho se mostra um pessimista radical, para quem a vida não passa de um engodo, sem nenhum sentido. E somos forçados a concordar com ele, desde que permaneçamos encarcerados nos horizontes terrestres.
Por outro lado, a verdadeira vida, a do cristão, volta-se para bens reais e elevados, embora invisíveis, todavia prometidos por Quem pode prometer e sustentar em sua peregrinação. A verdadeira vida também se alimenta da Esperança. Num outro ponto de vista, os bens são invisíveis, futuros, além do horizonte, mas certos e saciantes. Eles não nos decepcionarão. Antes, ultrapassarão de muito a expectativa: "Nem olhos jamais viram, nem ouvidos jamais ouviram, nem coração jamais sondou o que Deus preparou para os que O amam" (I Cor 2,9).
Para alcançar essa segunda virtude teologal, urge professar a primeira: a Fé. Por ela é que sabemos existir esses bens inefáveis; sabemos que Quem os prometeu é infinitamente poderoso, infinitamente bom e absolutamente fiel. Vivendo disto, vivemos da Esperança e sem ela não se pode viver. Com a Esperança, a vida não só tem sentido sempre, como se torna, a cada dia mais, caminho, degrau, em todas as coisas, nas alegrias e nas tristezas, nos triunfos e nas amarguras, desde que tudo seja feito e suportado com os olhos, mirando além do horizonte, sub specie æternitatis.
A vida vale a pena ser vivida e isso porque a Esperança nos dá alento e sentido a ela, permitindo-nos passar pelos bens temporais sem perder os eternos. Só assim se chegará, um dia, à plenitude da graça e gozar da visão beatífica, junto Daquele que se esperou a vida toda.Aí está como esse alento da vida sustenta, eleva, arrebata e, por fim, aquieta e alegra. Por isso, São Paulo diz estarem os cristãos "salvos em esperança" (Rom 8,24), exortando-os a serem "alegres na esperança" (Rom 12,12). Assim, por mais um desses paradoxos do cristianismo, este "vale de lágrimas" se converte em vale de alegria, escondida, sim, mas profunda, real, alegria que ninguém poderá nos tirar: in spe gaudentes.

O mundo das idéias

Em divagações vesperais, solitário, escondendo-me do castigante frio que nos tem visitado nos últimos dias, ou melhor, nas últimas semanas, permito-me ser levado por pensamentos múltiplos, até que me encontro a pensar no mundo das idéias. Ao falar do mundo das idéias, não me refiro àquele do filósofo Platão, aquele local distante, como que na Lua, mas analiso o mundo sub lunaria, terrestre, o mundo dos homens, mundo tecnológico, científico, filosófico, o mundo político, social e familiar. E quem governa esse mundo não é a força física, atlética, muito menos a força bélica ou política, mas a força do pensamento, do raciocínio, das idéias; o resto é conseqüência.
São as idéias que fazem o herói ou o fanático, que moldam o caráter de um construtor ou de um revolucionário, que regem os princípios de um cristão ou de um herege, que conduzem as metas de um educador ou de um manipulador, que "constroem" um homem ou um monstro. As ações, no início, podem até ser semelhantes, mas as idéias é que fazem a diferença, e as conseqüências mais ainda. Idéias postas como meta e princípio de ação chamam-se ideais. Foram idéias, por exemplo, de "pão e circo" que fizeram a decadência do Império Romano, assim como o ideal de disciplina e austeridade havia feito a sua grandeza. Da mesma forma como os ideais cristãos transformaram os bárbaros, violentos e destruidores, em pacíficos e ordeiros agricultores, construtores de uma sociedade considerada, por muitos, quase perfeita e dos grandes monumentos góticas do Velho Mundo, que, ainda hoje, os que restam, encantam a todos que os contemplam.
Assim, idéias de grandeza e de puritanismo de raça fizeram Hitler e o seu hediondo nazismo; idéias igualitárias, materialistas e atéias de Marx Hegel e Feuerbach geraram o comunismo frio e cruel; idéias fanáticas geram, hoje, os temíveis homens-bomba do Oriente Médio; tudo isso porque as idéias não permanecem na cabeça ou no escritório, por conseguinte elas descem às ruas e às praças, infiltram-se e revelam-se na sociedade, disseminando-se e contaminando a todos, muitas vezes com avassaladores resultados. Obviamente, se tenho como conceito de vida a idéia materialista de que o homem é apenas 70 quilos de carne e osso e que não há alma e nem um Deus remunerador, o que me impediria de satisfazer todas as minhas paixões, ainda que à custa da destruição do meu próximo?
Portanto, cabe aos educadores de nosso tempo formar nos educandos idéias sadias, ou melhor, fazê-los chegar a conclusões de idéias sadias, bem fundamentadas nos princípios morais (que moldam o caráter de cada um) e nos valores éticos (que constroem uma sociedade ilibada); o resto é superficialidade. Educação sem convicções é formalismo; disciplina apenas sob vigilância é militarismo; imposição sem ideal é autoritarismo.As idéias são sementes que, semeadas na ocasião propícia, fertilizam nas ações. Quem cultiva boas idéias colherá boas ações e ajudará a construir este mundo de idéias e de ideais, grandes e nobres; ajudará a construir um mundo melhor.

A degradação e a história

Uma lei imposta ao homem, em decorrência de sua natureza, é a degradação. Não num processo de conseqüentes mutações orgânicas, alcançando o amparo de pensadores modernos e suas teorias mirabolantes, mas uma ordem imposta pela decadência do homem, infligida pelo pecado original.
Deixando as constantes, polêmicas e inúmeras discussões acerca da ordem natural da criação, passemos a uma breve análise da degradação e do fim das cousas. Enquanto a degradação, com relação ao homem, soa-nos como um aviltamento, o rebaixamento, abjeção, uma decadência moral, o exaurir de uma capacidade protuberante à vida por causa de frustrações variadas, já o fim pode ressoar melhor como o coroamento de um feito, a transposição de uma fase, o ponto culminante de uma realização. Assim, não há um dia sem o seu crepúsculo vespertino, alcançando novamente o alvorecer de um novo dia; não há uma vida terrena que não chegue ao seu final, para que possa, então, alcançar a vida eterna; e a própria caminhada da humanidade tende a chegar a um estágio de perfeição, que será o final da peregrinação neste mundo e o limiar da contemplação e da convivência beatífica na nova Jerusalém, como nos assegura São João (Apoc 21,2).
O contrário da conservação verifica-se em todo o macrocosmo e o homem, embora dotado de faculdades intelectuais, é o mais vulnerável à degradação. Esse processo é um atentado contra o corpo, flagelando-o com o açoite da indisciplina, do desregramento, com o desrespeito a este templo do Espírito Santo que São Paulo diz sermos (1 Cor 3,16). Em conseqüência, padece a alma com essa violência que só a afastará mais e mais da graça.
Buscando conter a repetição de erros ou simplesmente perpetuar os fatos, como os primitivos registros em pedras feitos em tempos remotos, é provável que Deus Nosso Senhor tenha distinguido algumas inteligências com o privilégio de trazer os mortos aos vivos, apresentar ao presente o passado, para que sua luz clareie os passos do futuro. Isto é a história. Um fanal cuja luz reflete a experiência da humanidade para o futuro – “Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriæ, magistra vitæ, nuntia vetustatis” (A história é, na verdade, a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da Antiguidade), como primorosamente a define Cícero (De Oratore – II, 9-36). Neste contexto, não podemos nos esquivar em admitir a intenção divina na história, exposta de maneira oportuna por Monsenhor Bossuet em seus “Discours sur l’histoire universelle” (1681). Desta forma, os episódios que marcam todo o percurso da humanidade, os fatos que assinalam as diversas fases e os seus feitos, escapam do jugo da degradação.
Nos últimos tempos, tem sido freqüente a busca das origens, das raízes culturais e sociais de antigas localidades e de famílias que compuseram uma sociedade eclética nestes brasis, onde o branco misturou-se com o negro e o índio, confundindo-se a cultura européia com os costumes afros e indígenas e, mais recentemente, com as imigrações dos séculos XIX e XX, surgindo, assim, a sociedade brasileira.Talvez seja esta a missão transcendental desta Terra de Santa Cruz: unir os povos, despi-los de todo o preconceito e integrá-los num todo, formando uma só raça, composta por todas, ou quase todas, as demais que se encontram espalhadas pelos cinco Continentes. Com isso, muita cousa cai por terra e a máxima do amor fraterno aos poucos vai se tornando realidade. Um processo longo que veio se arrastando pelos dois primeiros milênios da Cristandade e, pelo já visto, ainda muito se prolongará até que se atinja o ápice dessa sociedade perfeita, quando os povos, libertados das falsidades ideológicas (inclusive daquelas que afetam questões morais e doutrinárias) que vem contaminando a humanidade ao longo dos séculos, terão, enfim, “unus Dominus, una fides, unum baptisma” (Eph 4,5).

Vandalismo assustador

É simplesmente assustador o vandalismo em Lafaiete. Os torpes atentados contra patrimônios particulares e públicos têm sido tão constantes que, às vezes, passam de forma despercebida. Mas, diariamente, orelhões, abrigos de ônibus, lixeiras, bancos e mesas colocadas nas praças e áreas de lazer aparecem quebrados, arrancados e revirados. As pichações, então, parecem ser uma forma de agressão mais violenta ainda. Com uma grafia em talhos agressivos, supondo-se códigos sabe-se lá do quê, é impossível entender se se trata de uma profecia, impropério ou simples irreverência; uma poluição visual, além do dano causado ao proprietário do bem pichado. Além dessas e mais algumas outras formas que bem mostram o vandalismo em nosso meio social, existem aqueles que se manifestam transitando pelas ruas com som ligado e em alto volume no automóvel, promovendo desordens pelas ruas, esmurrando portas, quebrando vidros. Esses "predadores" sociais devem trazer no sangue bastante remota, mas fortemente ativa, algum caractere de um antepassado bárbaro, também vândalo, como aqueles que cuidaram em assolar grande parte da Europa e África em priscas eras.A situação não é simples, meramente uma anarquia. Mais que uma explosão de rebeldia, é a conseqüência de décadas de descaso para com um submundo que foi se armando e, sem nenhum plano estratégico, deixou apenas extravasar todo o seu instinto, uma audácia que não perdoa a ninguém, nem a eles próprios. Em Lafaiete, prédios de repartições públicas, bustos, placas de sinalização, enfim, tudo o que se torna um alvo fácil, principalmente quando se trata de um patrimônio público, ou histórico, ou artístico ou religioso. Infelizmente, poucas vezes esses infratores recebem uma lição, como no caso de um menor que, há alguns anos, após ter sido descoberto como sendo o autor de algumas pichações na sede da Cohab, foi obrigado a apagá-las. Ante toda essa confusão, esses atentados que vem criando barreiras na convivência humana e dominando as elites, toda a população de Lafaiete deve ser conclamada a uma mobilização geral contra essas agressões morais e éticas desferidas na sociedade. O Poder Público tem feito sua parte e em momento algum tem se omitido quanto à gravidade do problema. Mas é preciso mais do que isso. Necessita-se urgentemente que a própria sociedade tome consciência que esses episódios constituem uma anormalidade que só tende a crescer. Hoje, estão destruindo bancos, lixeiras, monumentos; amanhã os vândalos estarão atacando as casas; aliás, algumas já foram, com pichações e depredações. O direito que cada cidadão tem de liberdade de ir e vir está se tornando vilipendiado, inibido por aqueles que querem dominar os meios em que vivem, e a isso toda a população tem que reagir, denunciando à Polícia toda e qualquer anormalidade. O vandalismo é o prenúncio da violência e o arauto que a mantém firme, de pé, como uma milícia beligerante. Se os vândalos querem guerra, que a tenham, mas não da forma como a promovem. Deverão sentir o peso do braço secular a condená-los e castigá-los por suas ações. E todos têm que contribuir para que essa Justiça seja feita.

Não matarás

A legislação divina, em seu quinto artigo, veda ao homem ofender a existência em geral, seja da própria vida ou a de outrem, neste caso a dupla vida, do corpo e da alma: "Não matarás" (Dt 5,17). Mas um outro mandamento vem de encontro a esse, o oitavo: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Dt 5,20). O primeiro sentido, claro, é o de não proceder a depoimento falso, mentiroso. Todavia, uma interpretação "senso lato" do artigo analisa-se a mentira, a difamação e a injúria, golpes estes que, não poucas vezes, atingem mortalmente a honra, o corpo e a alma. E, talvez, a que fere deveras mortalmente é a difamação, prejudicando, injustamente, a reputação do próximo, tendo como arma a língua; como projétil o verbo.
Os meios que o difamador lança mão para alcançar seus fins são a calúnia, a maledicência ou murmuração e a delação, aliás, muito comuns em nossos dias, em que os princípios éticos facilmente são acalcanhados, em benefício de interesses mesquinhos ou pela simples satisfação de ferir a fama alheia. - Quantas pessoas são, por isso, prejudicadas, quantas honras maculadas, quantos corpos enfermos e quantas almas feridas pelo veneno desses "diabolos"? Inevitavelmente, muitas vezes, somos obrigados a conviver com esses asseclas do príncipe das trevas, que os atrai, mais e mais, a cada novo golpe, para os ergástulos de todos os vícios, onde imperam a inveja, o orgulho e a presunção. Por mais que insistam em justificar seus atos, jamais deixarão de ser assassinos morais, pois as conseqüências de suas atitudes são sempre más.
Mais repugnante ainda são aqueles que, dissimulados, chegam a se apresentar, ora como vítimas, ora como protótipos de uma conduta ilibada. Contudo, ao final, conhece-se sua intenção. Assim, se a difamação faz-se a um superior, propõe-se a desacreditar e incompatibilizar a vítima; se a um parente ou amigo, desmancha a amizade, alui a confiança, perturba o sossego do lar. E nessa súcia há difamadores de toda espécie, dependendo do grau de sua pusilanimidade, uma vez sua atitude facínora nada mais ser senão um modo de encobrir suas fraquezas.Na hierarquia dos difamadores há os insignificantes, a quem pouco crédito se dá, pois não gozam de uma reputação capaz de endossar suas atitudes. Os conspícuos, morigerados e reservados, por sua vez, são perigosos, valendo-se de um falso prestígio para que suas palavras causem impressão. Porém, os piores de todos são os que denominaríamos "fariseus hodiernos": pérfidos cristãos, mostrando-se tementes a Deus e sinceros, enquanto, na verdade, não passam de celerados, promotores da discórdia, assassinos de almas; pena esquecerem-se da admoestação evangélica: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus" (Mt 7,21). - Quanto a eles, julgarem-se sinceros é um desrespeito aos probos e cultos, pois a sinceridade só vale se amparada na caridade, e esta virtude a desconhece essa corja de difamadores. O homem deve, sim, falar sempre a verdade, mas não todas as verdades - isto é um princípio moral, o que não quer dizer que deva mentir. A sinceridade manda pensar tudo o que se irá dizer, e não dizer tudo o que se pensa. A discrição manda calar o que não é oportuno, manda ponderar as palavras e silenciar os segredos. A sinceridade e discrição são duas virtudes preciosíssimas por igual. Se fossem abstraídas pelos difamadores de plantão, vendetas da discórdia, talvez a sociedade seria mais justa e fraterna.

Amar sem ser amado

“Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16) - eis o amor extremoso de Deus para com a Humanidade. Após a obra maravilhosa da Criação, e da consumação da Graça pela desobediência, “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14) para resgatar-nos do cativeiro.
A ofensa infinita, cometida desde Adão, nosso primeiro pai, não poderia ser reparada pelo próprio homem, criatura limitada e culpada. Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo tomou nossa natureza, sem perder sua Divindade; só assim a reparação foi igual à ofensa: infinita e universal.
Só por amor, Jesus Cristo “humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz” (Flp 2,8). Cristo não se prevaleceu de sua Majestade Divina, preferiu aniquilar-se até à obediência da cruz, para nos ensinar a humildade e a obediência. “Assim como esteve três horas na cruz - nos diz S. Afonso -, se fosse necessário estar nela até o dia do juízo, ele teria amor para o fazer. Jesus Cristo amou muito mais do que sofreu”.
Na instituição da Eucaristia, Jesus Cristo demonstra, mais uma vez, seu amor. Sabendo que chegara sua hora, “deu-se todo, não reservando nada para Si”, diz S. João Crisóstomo. “Neste dom da Eucaristia, Cristo quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens” (Conc. Trento, Sess. XIII, c. 2). São Tomás de Aquino chama-o de “sacramento de amor, prova de amor”. E Santo Afonso comenta, ainda, que “Cristo não contentou seu amor apenas dando-se todo ao gênero humano pela encarnação e paixão, morrendo por todos os homens. Quis ainda encontrar o meio de dar-se todo a cada um. Instituiu, por isso, o sacramento do altar a fim de unir-se todo com cada um de nós”. Segundo São Bernardino de Sena, “o dar-se Jesus Cristo a nós como alimento foi o último grau de amor”.Poderia encher folhas e folhas de exaltação ao amor de Deus, que seriam baldadas, se não souber retribuir com amor Aquele que nos ama “com um amor eterno” (Jr 31,3). Que a humanidade redimida saiba retribuir esse amor eterno de Deus e faça como São Francisco de Sales exorta, lançando-se sobre “Jesus crucificado para morrer com ele na cruz” e, como exorta o beato Columba Marmion, “devemos amar a Deus totalmente, amar a Deus com toda a nossa alma, com todo o nosso espírito, com todo o nosso coração, com todas as nossas forças: é amar a Deus, aceitando, em toda a sua extensão, o que a sua santa vontade prescreve”. Corramos em busca desse Deus que tanto ama e, muitas vezes, não é amado.

Diretas Já!

Tem-se comemorado, pelo país afora, nos meios políticos, os vinte anos do movimento "Diretas-Já", que mobilizou toda a nação, convocando-a a participar do processo de redemocratização a se desenrolar naquela época. Em Minas, o ponto alto dessa comemoração, até o momento, teve lugar em Ouro Preto, durante as festividades do 21 de Abril. O governador Aécio Neves, neto de um dos líderes do movimento, o presidente Tancredo Neves, presidiu, entusiasmado, a manifestação que lembrava os quatro lustros daquela manifestação nacionalista que, embora sem alcançar o seu objetivo em seu acalorado momento, encorajou a todos os brasileiros a tomarem parte daquele instante cívico que marcaria o limiar de uma nova fase na história da república.
Analisando todo esse processo, vemos quão complexas são as conjeturas que regem o desenrolar e as tratativas políticas no Brasil, e quase nos convencemos de que essas manifestações populares de nada valem, se não houver um interesse por parte dos verdadeiros "administradores", aqueles que decidem as medidas a serem tomadas. Desta forma, tem se desenrolado toda a história do Brasil, desde os seus primórdios. E dois exemplos podemos apresentar, uma vez estarem sendo lembrados no momento: a Inconfidência Mineira e a Revolução de 64.
A Inconfidência Mineira, movimento de cunho puramente nacionalista, ao idealizar a fundação de uma nação, com um projeto compromissado com o desenvolvimento e a valorização dos produtos da terra, gorou por causa da ambição e dos interesses particulares que começaram a aflorar, primeiramente, em seu meio. O povo poderia até ter conhecimento dos planos de um levante contra o domínio português, mas a desconfiança (dizem-na peculiar dos mineiros) e sua completa ausência a engrossar a fileira dos conjurados contribuíram para com o seu malogro. É verdade que grande parte da população não desconhecia o movimento, tanto quanto é verdade não terem, mesmo assim, dele participado, como alguns estudioso sugerem. Caso contrário, aconteceria o levante, mesmo com a devassa. Ainda que sem a participação das massas, o movimento obteria êxito, se fosse do interesse, naquele momento, das potências; a pretensão delas fora apenas desbaratar a conjuração e castigar apenas um, desde que se enquadrasse ao moldes do responsável ideal pelo movimento, ou seja, filho da terra, comprometido claramente com o movimento, fiel às suas idéias e sem nenhum respeito humano quanto a elas.
Na Revolução de 64, mais uma vez, essas "forças ocultas" (como já as denominara o presidente Jânio Quadros) só quiseram atender aos clamores das classes alta e média, uns com os seus interesses pessoais e outros com os seus princípios morais, visivelmente demonstrados nas manifestações de círculos sociais e através das marchas "Com Deus pela Família". Temendo, ingenuamente, o governo fraco e instável de João Goulart, deram uma "procuração" às Forças Armadas para que agissem "em defesa da integridade da Nação". Estas, sequiosas pelo poder desde que se julgaram fortalecidas com a atuação da FEB na 2ª Grande Guerra, acalcanharam a democracia, depondo um governo legitimamente eleito (lembre-se que, embora o fora como vice-presidente, Jango não deixou de ser confirmado no cargo de presidente por ocasião do plebiscito), e acalcanharam também o povo, impondo-lhe um regime ditatorial. Se fosse interesse deles o de atender aos "clamores" de grande parte da população, teriam, sim, deposto, como depuseram, João Goulart, mas convocariam os brasileiros a um pleito a fim de eleger o novo presidente. Mais uma vez, ficaram os brasileiros à margem dos interesses comuns.Finalmente, as "Diretas-Já", mesmo levantando milhões de pessoas em todo o país, não alcançaram o seu objetivo. Ora, o processo de reabertura política começara, alguns poucos anos antes, tomando impulso a partir da eleição do brigadeiro João Batista de Oliveira Figueiredo. Então, era claro que chegaria o momento em que a redemocratização aconteceria plenamente (evitando-se, aqui, algumas reservas acerca desse tema). As "Diretas-Já" venceram no Congresso Nacional, mas só para as eleições seguintes ao pleito previsto para 1985, o que conseqüentemente aconteceria com a promulgação de uma nova Carta Magna. Por isso, as "Diretas-Já" foi apenas mais um movimento popular em nossa história, apresentando-se ter conquistado seu ideal, enquanto, na verdade, foi apenas o pano de boca do que realmente acontecia nos bastidores da história.

Quando Deus é morto

A seqüência de atentados terroristas e o crescimento assustador da violência em todo o mundo levam o homem, numa crise de consciência para alguns, ou tentação contra a fé para outros, a se questionar: “Deus existe?”.
A existência de um ser supremo, de uma força superior, que tenha ordenado e coordena todo o ciclo e evolução da natureza, é inquestionável. O racionalismo não é capaz de manter-se equilibrado, sozinho, em suas teorias; acaba prostrando-se ante as dúvidas que acabam se apresentando, só encontrando respostas ao crer que há algo a regular toda uma ordem natural no universo.
Mas os equívocos que se formam em torno desse tema, ou seja, essa força superior, ordenadora, confundem, não poucas vezes, a inteligência humana, levando os homens a promoverem uma verdadeira barbárie em nome de uma crença. A mais antiga, que ainda prevalece, não obstante inúmeras tratativas diplomáticas, é entre cristãos e mulçumanos. Estes continuam irredutíveis em sua posição radical e, para nossos dias, obsoleta; aqueles primeiros, com um siso aparentemente flexível, revisaram, nos últimos anos, muito de sua conduta, abrindo-se ao diálogo, à tolerância, ou compreensão, assimilando de maneira mais límpida o sentido de liberdade.
Contudo, toda pessoa que goze de uma compreensão lúcida em nossos dias, saberá que o motivo verdadeiro de todo esse processo aterrorizante é de origem mais política do que religiosa. O domínio do mundo, a ânsia pelo poder temporal, sempre foi a razão pela qual a terra, inúmeras vezes, foi regada com o sangue do homem. E nesses momentos beligerantes, sob o olhar do Ser Supremo, sob os olhos de Deus, os homens, todos, não passam de fratricidas.Nesses mesmos momentos, no subconsciente dos promotores dessas guerras estúpidas, certamente uma só é a condenação que lhes toque: DEICIDAS. É quando, então, ainda que não declarem publicamente, intimamente sentem que Deus é morto, pois, na verdade, não lutam por ele (e nem seria possível tal absurdo), ao contrário, lideram essa hecatombe para alimentar o seu amor-próprio, em função do qual se avassalam todos os vícios.

Doce ilusão

O povo brasileiro parece ter a vocação para viver iludido; e a esse chamado sempre se corresponde prontamente, mais ainda quando vai às urnas em mais um pleito eleitoral. Esse fenômeno se verifica desde que os ingênuos tupiniquins acreditaram que viveriam regidos por uma democracia. Mas esses sistemas, cujos reflexos de suas perfeição já se refletiam nas inteligências da Grécia Antiga, até hoje não alcançou um estágio de estabilidade, assegurando ao homem satisfação pessoal e comunitária. Entretanto, essa conquista só se realizará quando todos, indistintamente, gozarem de uma sinesis comum; desta forma, a humanidade estará caminhando num único sentido, em busca de um mesmo ideal.
No entanto, isso parece impossível e que nunca irá ocorrer. As atitudes dizem por si, sejam elas dos governantes e do povo. Existe uma discordância nos atos e no juízo de todos, de modo que, impossibilitado de apoiar-se em algo firme para, a partir daí, impulsionar-se na busca de um ideal, o homem prefere iludir-se com o modismo; aliás, uma potente arma usada por aqueles que cuidam em manipular a todos. E a democracia é uma dessas armas, ou melhor, não o sistema em si, mas a exploração dessa utopia, engodo a seduzir os inocentes que acreditam numa colheita de pomos d’ouro na safra de benesses que lucrariam com o governo de povo.
Buscando entender melhor esse conturbado processo, tomemos como paradigma o MST. Seu objetivo já era discutido no final do segundo reinado do Brasil, quando, acerca da abolição da escravatura, uma ala defendia a necessidade de se proceder a uma indenização aos negros, concedendo-lhes terras onde pudessem se fixar e dela tirarem seu sustento. Venceu, porém, o açodamento com que, comumente, são tomadas as decisões políticas no Brasil, que carecem de mais estudos e planejamentos, antes de serem executadas, e os cativos, depois de libertos, foram colocados, muitos deles, no olho da rua, sem ter para onde ir. Iniciava-se, assim, um outro processo social que não é o enfoque deste momento. Mas essa reforma agrária proposta lá nos oitocentos volta a ser cogitada quando as idéias socialistas começam a se difundir no Brasil. Sufocadas pelos governos elitistas, em atenção a seus patrocinadores, somente há uma década, mais ou menos, a reforma agrária começou acontecer, e todos vêem que ela não e nenhum bicho-papão, como diversos setores e instituições apresentaram-na a nação por muitos anos. Até aqui, tudo parece correr bem, se não fosse o MST, ou melhor dizendo, se não fossem algum membros do MST a conturbarem todo esse processo, promovendo assentamentos a forca desafiando o governo e o projeto de reforma agrária. Tudo isso para disporem de mais um argumento a fim de iludirem as pessoas ingênuas que, desesperadas com tantas injustiças, incapazes de enxergar a um palmo do nariz, dão ouvidos a qualquer leguelhé que se mete a pregar sobre direitos humanos e justiça social. O governo, por sua vez, e culpado por não tomar uma atitude enérgica contra esses oportunistas que, a sombra do MST, fazem sua campanha. O Brasil não vive um sistema democrático, como tal o é. O povo tem que se conscientizar que essa democracia tão apregoada não passa de uma doce ilusão, e esta sinestesia tem que ser desmascarada ante a reação dos brasileiros, não com atitudes de revolta, mas de dinamismo na construção de uma sociedade mais justa. Somente desta forma avistar-se-á talvez, um dia, a democracia.