sexta-feira, outubro 17, 2008

Olho-grande

É muito comum ouvirmos falar de olho-grande, ou olho-gordo, sobre algo que tanto se deseja, capaz de definhá-la. Os supersticiosos sempre encontram uma benzação ou uma panacéia que combate esse mal temido pelos mais crédulos. Juram que uma pessoa de olho-grande é capaz de fazer secar uma pimenteira, deixar careca a dona das mais belas madeixas, entristecer o mais contente semblante. Inclusive, um programa de TV tem feito muito sucesso com um quadro em que a personagem vive ambicionando o bem alheio.
Na realidade lafaietense, o olho-grande do momento mira os cargos comissionados que o prefeito eleito José Milton de Carvalho Rocha (PSDB) tem à sua disposição na Prefeitura. De acordo com o que o Jornal CORREIO levantou, são 287 cargos com salários entre R$ 1.176 e R$ 5,5 mil. Como acontece a cada quatro anos, correligionários políticos, assessores mais próximos e outros interessados já começam as articulações, almejando uma colocação.
Durante muito tempo, os cargos políticos foram alvo de disputas em diversas modalidades, desde o mero apadrinhamento à troca de beneplácitos, com interesses, às vezes, suspeitos. Necessitou-se quase desenvolver uma jurisprudência para conter abusos, cada vez mais difíceis. No entanto, sempre se encontra uma fenda legal por onde se introduz uma cunha protegida, às vezes, incapaz de corresponder à expectativa de seu desempenho; uma autêntica colocação política.
Enquanto o prefeito eleito descansa em viagem, após a maratona de campanha, já se ouvem por aqui cochichos, insinuações e alfinetadas sobre as pretensões dos cargos. É preciso que esse pessoal tenha um pouco mais de bom senso e espere ser convidado. Certamente, ele saberá quem melhor poderá oferecer ao município em troca dos almejados salários. É melhor aguardar ser chamado, com tranqüilidade e discrição, do que se oferecer e não dar conta do serviço. Olho-grande, neste caso, é perigoso minguar o dinheiro, que não pagará tanta amolação que dará aos incompetentes, ao mesmo tempo em que desfalcará os cofres públicos.

(Publicado como Editorial do Jornal Correio da Cidade, edição 929, de 18 a 24/10/2008)