sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Triste realidade

As constantes informações, principalmente aquelas obtidas através da imprensa, além dos episódios testemunhados por todos, mostra-nos um quadro crescente da violência em todo o mundo, cujos reflexos, senão indícios primários, já se verificam em nossa cidade. A partir daí, conseqüentemente, somos levados à meditação sobre a realidade das cadeias públicas e penitenciárias do país. Infelizmente, essas instituições não passam, como sempre o foram, de despejos de homens facínoras, delinqüentes, celerados, corruptos, pusilânimes etc, mas são homens. Ainda que autores das mais terríveis atrocidades, são seres humanos. Às vezes, o trabalho de agentes da Pastoral Carcerária e de órgãos de defesa da dignidade humana são mal compreendidos, só que eles procuram exercer uma função que caberia a toda a sociedade; no entanto, a situação moralmente caótica, só tentam remediá-la quando já avança em estágios finais.
A realidade cá fora, no Brasil, já é de um verdadeiro clima de guerra civil. O povo só não deu conta disso, ou não quis admiti-lo, porque ainda há o futebol, samba, cerveja gelada e novela das oito (que hoje é das nove). Mas um Estado onde não se respeita a autoridade policial, muitas vezes porque ela também não zelou pelo seu caráter de proporcionar a segurança pública, isso, por sua vez, em decorrência da falta de sua própria segurança e de salários dignos, vendo-se, portanto, por aí, que a máquina social está se desgastando cada vez mais, causando toda essa desordem no país, está prestes a uma autodestruição. Ainda assim, nenhuma providência enérgica contra os infratores da ordem é tomada.
Quando esses infelizes são detidos e jogados no submundo dos ergástulos, eles se vêem e sentem as conseqüências desses infernos da sociedade. Nas prisões se misturam as classes (exceto os que têm curso superior), passam dias e anos entre quadro paredes criminosos de todos os tipos, podendo estar lado-a-lado o ladrão de galinha e o estuprador; o assassino e o estelionatário; a prostituta e o maníaco. Como se espera a recuperação dessas pessoas, para que possam vir a se reintegrar na sociedade após “pagarem” sua pena? Na maioria dos casos, o sentimento que nutrem 24 horas por dia é o de vingança e o de como fazer para sair dali. Entre eles não há nenhum respeito. A tensão de seus ânimos se inflama ainda mais com as condições em que vivem. Não há perspectiva de recuperação na maioria das cadeias públicas e penitenciárias do Brasil, se mantiverem o sistema obsoleto e desumano que ainda vigora.
Em meio a esse quadro sombrio e, de certa forma, desolador, por vezes, alguma voz se alça pedindo mais justiça, propondo a pena de morte. Vale lembrar, por isso, um episódio que se passou no interior de Minas, numa das últimas execuções de pena de morte, ainda nos tempos do Império do Brasil. Um detento de uma cadeia pública havia matado um companheiro de cela por causa da comida, que estava racionada. O assassino foi levado a julgamento e condenado à morte. No dia da execução, um sacerdote, ao proferir o sermão antes do enforcamento, lembrou que aquele homem seria enforcado vítima de seus desvarios, e estes em conseqüência da falta do respeito que o Estado deveria devotar àquela criatura. Ele matou porque tinha fome, na luta pela sobrevivência, e ele tinha fome porque não lhe davam de comer. A pena de morte só poderia ser aplicada num estado que estivesse imune de qualquer erro em sua organização, imune de qualquer falha em sua integração. Ora, um estado imune de qualquer erro ou falha é um estado perfeito. Logo, a um estado perfeito não há o que corrigir, portanto não se aplicaria a pena de morte. Subentende-se, então, que a pena de morte é inconcebível, principalmente na presente situação.O homem, carente de afetividade, por pior que seja, sem respeito e sem caridade jamais se recuperará. E é a isso que os agentes da Pastoral Carcerária se propõem, levar conforto espiritual e uma palavra de incentivo, para que consigam suportar o sofrimento que lhes visita nas prisões, preparando-se para se reintegrarem à sociedade. Ao Estado, caberia uma reformulação do sistema penitenciário. Há diversos graus de delinqüência e isso deveria ser meticulosamente observado para que se alcançasse um índice maior de recuperação desses seres humanos.
26/11/2004

A liberdade de imprensa

Os difíceis dias vividos pelos meios de comunicação em geral, principalmente em épocas de restrições políticas, são como tônicos que revigoram mais ainda a fibra daqueles que vivem em busca da notícia para ajudar na formação de uma sociedade conscientemente mais justa, informando sobre a verdade dos fatos. "... E quantos mais morriam, mais tinham vontade de morrer", assim descreveu Mme. Martin Piel a bravura dos primeiros cristãos que professavam sua fé nas arenas romanas. Com semelhante destemor, a história registrou muitos homens, hoje vistos como heróis, enquanto naquela época talvez não passassem de loucos que, por uma causa maior, venceram barreiras e conquistaram ou, pelo menos, fizeram valer seus ideais.
O ideal que impulsiona o profissional da área de jornalismo é, simplesmente, dar a notícia de maneira clara e imparcial. E é por esse ideal que ele enfrenta dificuldades pessoais e sociais, mas suporta tudo pela dedicação, responsabilidade e respeito para com seu trabalho e por acreditar que, fazendo sua parte, a sociedade estará tendo mais uma oportunidade para trabalhar nesse aprimoramento da caminhada de todos na construção do todo. Seria interessante se todos tivessem um discernimento criterioso sobre a missão daqueles que informam e a missão que devem desenvolver aqueles que foram informados. Certamente, o mundo seria outro.Mas tanta digressão, quase chegando ao limiar de devaneios utópicos, se justifica nas diversas vezes em que o profissional desta are, no exercício de seu trabalho, é constrangido por causa da inconseqüência de pessoas que, muitas vezes incapazes de conter seus ímpetos, querem descontar nos profissionais da Imprensa todo sua tensão, revolta ou qualquer outro sentimento que lhe altere os ânimos. É preciso que as pessoas, mesmo nas horas mais difíceis, busquem analisar com clareza os fatos, preservando, desta forma, seu autodomínio, até mesmo sua capacidade de raciocínio. A experiência vivida por alguém, seja ela boa ou má, é exemplo para todos. O sucesso e o fracasso são episódios constantes na vida do homem; com eles devemos aprender a conviver. E só o conseguiremos através de nossas próprias experiências e as de outrem. Por isso é necessária a divulgação dos fatos, a veiculação de informações, para que o homem cresça em si (na sua formação) e na sociedade. Os meios de comunicação, sejam eles de forma escrita, falada ou televisiva, estão a serviço da comunidade e, enquanto estiverem trabalhando para noticiar de maneira clara e imparcial, como já foi dito, ninguém tem o direito de tolher essa liberdade da Imprensa.
29/10/2004

A Raimundo Correia

Nas três últimas décadas do século 19, o Brasil passou por uma ebulição cultural, transformando todos os segmentos da sociedade, com grande destaque para as áreas política, ideológica e literária. Transformações, essas, benéficas, num certo sentido, mas, por outro lado, catastróficas. Benéficas ao deparar-se com a geração de então se levantando em busca da concretização de seus ideais, ao contrário de nossos dias, quando vemos, com raras exceções, a juventude estagnada, alheia a tudo o que a rodeia, senão à satisfação pessoal e de seus instintos, debruçando-se sobre o seu “eu”, genuflexa ante às baixas imposições da natureza humana, buscando os subterfúgios que lhe servem de apoio, entrando, assim, num processo de alienação de si em favor das paixões e dos vícios, num labirinto onde se perdem e se deparam com o amor-próprio e com o desamor.
Voltando à realidade do final da centúria oitocentista, as transformações maléficas teriam sido a exaltação do Naturalismo, do Positivismo e do Racionalismo, principalmente nos meios acadêmicos, rendendo, àquela época, o epíteto de “a Renascença Brasileira”. Contudo, não se pode olvidar os tantos vultos que se sobressaíram no cenário sócio-cultural daqueles dias, oriundos de todos os quadrantes destes brasis, concentrando-se nos principais centros de então: Rio de Janeiro e São Paulo; esta, por ser um forte campo acadêmico com notável vocação para o nacionalismo, como atestara o passado e comprovara o futuro; aquela, por ser a Corte e, depois, capital da República, para onde convergiam, naturalmente, todos os valores.
Nessa época, em que a Literatura liquidava o Romantismo, cedendo-se ao fascínio do Parnasianismo, é que surge o admirável Raimundo Correia, que, com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, formara a “trindade parnasiana”. E o sensível humanista e inspirado poeta não escapara à regra. Tendo, ao início, deixado se levar pelo Romantismo, não tardou deixar se seduzir pela “Idéia Nova” em voga (aliás, que ele cantou em versos), até se consagrar no Parnasianismo como “o maior artista do verso” no Brasil.
Melancólico, às vezes descrente (senão frustrado em seu íntimo), sua pena espelhou uma tristeza interior, um sofrimento profundo e suas considerações acerca da transitoriedade da vida e das coisas. Tudo lhe parecera ser passageiro, ser desilusão, nada de bom existira, talvez, no pensamento desse poeta-filósofo, enquanto suas atitudes atestavam extraordinária pureza e bondade, conforme relatam seus biógrafos, a ponto de Afrânio Peixoto cognominá-lo “São Raimundo”. E de um de seus mergulhos ao seu interior nemoroso, quiçá tenha emergido “Mal Secreto”, concluindo que:
“Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”
Ou num dos instantes de desilusão deixara escapar-lhe no papel “Vulnus”:
“Com bons olhos, quem ama, em torno tudo vê!
Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;
A crença doira e azula o círculo que o cinge;
Da volúpia do bem o grau supremo atinge!

Eu também atingi esse supremo grau:
Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau!
E as culpadas sois vós, visões encantadoras,
Virgínias desleais, desleais Eleonoras!

Minha alma juvenil, ígnea, meridional,
Num longo sorvo hauriu o pérfido e letal
Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!

A vossos pés rasguei tantos castelos! Tanto
Sonho se esperdiçou! Tanta luz se perdeu!...
Amei: nem uma só de vós me compreendeu!”Certo é tudo o que lhe tocara o sentimento ou se desenrolara em seu raciocínio foi tema para os versos desse poeta que sentiu-se feliz e amado, mas cuja felicidade o desanimava, cujo amor o constrangia (in “Incoerência”).
21/10/2004

Às vésperas da eleição

Às vésperas de mais um pleito, torna-se oportuno meditar sobre a realidade política de Conselheiro Lafaiete. É bem provável que só no futuro entenderemos o processo social e político pelo qual passamos, isso se houver uma firmeza ideológica nas pessoas, nos empreendimentos, nas instituições, o que muitas vezes parece não existir. A falta de convicções, de uma linha de raciocínio que bem defina e justifique o desenrolar de um acontecimento, de uma luta para o bem da comunidade, pode parecer debalde para o crescimento social, inda que não o seja. E isso pôde-se constatar ao longo de toda a campanha eleitoral, mormente nas últimas semanas, quando o desespero em assegurar a vitória nas urnas levou alguns candidatos a lançarem mão de todos os argumentos e artifícios, até dos mais baixos.
Dizer que os políticos locais nada fazem pela cidade, que as diversas instituições trabalham apenas para um beneficiamento particular e restrito, que as pessoas não buscam participar ativamente do desenvolvimento a atingir o bem comum, seria injusta afirmação. De fato, os políticos têm feito muitas benfeitorias para a cidade, as instituições, em seus diversos setores, também vêm trabalhando em prol do desenvolvimento de Lafaiete e a comunidade, por sua vez, não se omite e, pelo que se vê, procura colaborar nas diversas circunstâncias. Entretanto, cada qual a seu modo. Aí, então, é que se encontra o motivo de toda a leviandade do sistema que move as atitudes no dia-a-dia. O que no início parecia ser inconsistente, hoje tomou um certo impulso e, sem ser consistente, move a atual engenhoca social.
Isso tudo pode parecer divagações em torno de temas complexos e opiniões variadas, mas é o motivo que faz do Estado e, em nosso caso, do Município uma mera circunscrição administrativa; das instituições, clubes de livres pensamentos sem ameaçar a integridade do Estado, já que ele não passa, como já dissemos, de uma mera circunscrição administrativa e comprometida com as instituições, cujos membros de um e de outro se alternam; enfim, o povo é sempre o povo, jamais se levanta, senão impulsionado pelas instituições quando se sentem em perigo e cedem a vez ao povo, para que este vá iludido clamar pelos direitos daquelas, pensando ser os dele.
A cartilha é uma só para todos, a cartilha iluminista; e para se mostrarem intelectuais e sem compromisso com qualquer corrente ideológica, qualquer credo ou cultura, muitas vezes declaram com ela: "nossa finalidade é a difusão da cultura, combater a existência de dogmas e preconceitos religiosos, econômicos, políticos, morais e sociais em que se baseia a ignorância que retarda a realização das aspirações que norteiam os povos". No entanto, seus princípios se confundem e contradiz essa sentença com uma significativa diferença: o que abominam muitas vezes é a verdade, preferindo a mentira por ser o que melhor lhes convém. Em suma, é unicamente uma luta pelos direitos e interesses particulares.
E a campanha eleitoral de 2004, com a exceção de alguns candidatos, foi o espelho que refletiu tudo isso, principalmente o interesse particular. Os eleitores foram, mais uma vez, desrespeitados, enquanto alguns candidatos brigavam para assegurar o cobiçado cargo a que se apresentam, dando um público testemunho da mediocridade a que servem, do sentimento pequeno, sustentado pelo amor-próprio, em prejuízo para Lafaiete e para os lafaietenses. Que o povo tenha consciência e não se deixe levar pelo “canto da sereia” de alguns candidatos que tentam iludi-lo com promessas (e ainda a fazem!) imbecis, com críticas infundadas e argumentos sem lógica.
30/09/2004
Às vésperas de mais um pleito, torna-se oportuno meditar sobre a realidade política de Conselheiro Lafaiete. É bem provável que só no futuro entenderemos o processo social e político pelo qual passamos, isso se houver uma firmeza ideológica nas pessoas, nos empreendimentos, nas instituições, o que muitas vezes parece não existir. A falta de convicções, de uma linha de raciocínio que bem defina e justifique o desenrolar de um acontecimento, de uma luta para o bem da comunidade, pode parecer debalde para o crescimento social, inda que não o seja. E isso pôde-se constatar ao longo de toda a campanha eleitoral, mormente nas últimas semanas, quando o desespero em assegurar a vitória nas urnas levou alguns candidatos a lançarem mão de todos os argumentos e artifícios, até dos mais baixos.
Dizer que os políticos locais nada fazem pela cidade, que as diversas instituições trabalham apenas para um beneficiamento particular e restrito, que as pessoas não buscam participar ativamente do desenvolvimento a atingir o bem comum, seria injusta afirmação. De fato, os políticos têm feito muitas benfeitorias para a cidade, as instituições, em seus diversos setores, também vêm trabalhando em prol do desenvolvimento de Lafaiete e a comunidade, por sua vez, não se omite e, pelo que se vê, procura colaborar nas diversas circunstâncias. Entretanto, cada qual a seu modo. Aí, então, é que se encontra o motivo de toda a leviandade do sistema que move as atitudes no dia-a-dia. O que no início parecia ser inconsistente, hoje tomou um certo impulso e, sem ser consistente, move a atual engenhoca social.
Isso tudo pode parecer divagações em torno de temas complexos e opiniões variadas, mas é o motivo que faz do Estado e, em nosso caso, do Município uma mera circunscrição administrativa; das instituições, clubes de livres pensamentos sem ameaçar a integridade do Estado, já que ele não passa, como já dissemos, de uma mera circunscrição administrativa e comprometida com as instituições, cujos membros de um e de outro se alternam; enfim, o povo é sempre o povo, jamais se levanta, senão impulsionado pelas instituições quando se sentem em perigo e cedem a vez ao povo, para que este vá iludido clamar pelos direitos daquelas, pensando ser os dele.
A cartilha é uma só para todos, a cartilha iluminista; e para se mostrarem intelectuais e sem compromisso com qualquer corrente ideológica, qualquer credo ou cultura, muitas vezes declaram com ela: "nossa finalidade é a difusão da cultura, combater a existência de dogmas e preconceitos religiosos, econômicos, políticos, morais e sociais em que se baseia a ignorância que retarda a realização das aspirações que norteiam os povos". No entanto, seus princípios se confundem e contradiz essa sentença com uma significativa diferença: o que abominam muitas vezes é a verdade, preferindo a mentira por ser o que melhor lhes convém. Em suma, é unicamente uma luta pelos direitos e interesses particulares.
E a campanha eleitoral de 2004, com a exceção de alguns candidatos, foi o espelho que refletiu tudo isso, principalmente o interesse particular. Os eleitores foram, mais uma vez, desrespeitados, enquanto alguns candidatos brigavam para assegurar o cobiçado cargo a que se apresentam, dando um público testemunho da mediocridade a que servem, do sentimento pequeno, sustentado pelo amor-próprio, em prejuízo para Lafaiete e para os lafaietenses. Que o povo tenha consciência e não se deixe levar pelo “canto da sereia” de alguns candidatos que tentam iludi-lo com promessas (e ainda a fazem!) imbecis, com críticas infundadas e argumentos sem lógica.

Neopaganismo

Vivenciamos, em nossos dias, um novo renascimento; o renascimento do paganismo. E, através desse fenômeno, contatamos, cada vê mais, uma decadência social, decorrente da perda de valores, ou desvalorização dos princípios.
Situação semelhante viveu a humanidade nos séculos 15 e 16. O Renascimento de então, esforçando-se para restaurar as riquezas das antigas culturas pagãs, particularmente a cultura e a arte dos gregos, conduziu à exaltação exagerada do homem, da natureza e das forças naturais. Exaltando a bondade e o poder da natureza, menosprezava-se e fazia-se desaparecer do pensamento dos homens a necessidade da graça, a destinação da humanidade para a ordem sobrenatural, a luz trazida pela Revelação.
Com isso, desencadeou-se um desagregamento profundo na cristandade, possibilitando circular pelos bastidores das nações católicas o veneno do naturalismo político e social, logo, logo, alcançando as universidades, atingindo os “filósofos das luzes”. Estes últimos imaginavam um estado de natureza que nada tem a ver com o realismo da filosofia cristã, culminando com o mito do “bom selvagem”, de Jean Jacques Rousseau. Assim, fica a lei natural reduzida a um conjunto de sentimentos que o homem tem de si mesmo e que são compartilhados pela maior parte dos outros homens.
Na ânsia de emancipação em relação a Deus e à sua Revelação, o homem cortou as ligações com os princípios da ordem natural, separou a fé e a razão. Ora, ensina o Magistério da Igreja que “a reta razão demonstra as bases da fé e, esclarecida por ela, cultiva a ciência das coisas divinas; e a fé, por sua vê, livra e defende a razão dos erros e lhe proporciona inúmeros conhecimentos” (Const. De Fide Catholica, “Dei Filius”, D nº 1.799). Mas isso gerou a Revolução e, esta, promoveu o liberalismo, o naturalismo e o racionalismo. Deificaram a razão, cavando abismos e levantando muralhas; forjaram uma liberdade, sem os fundamentos da verdade. Com este espírito fez-se a Revolução, cujos frutos sazonados a humanidade colhe e saboreia, alimentando a livre interpretação dos valores éticos e morais e dos princípios em que se baseiam.
Essa Revolução é quem advoga a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão, subterfúgio mor para propalar aos quatro ventos os mais absurdos conceitos, contaminando todos os meios sociais, principalmente aqueles sem formação e, pior ainda, sem capacidade de discernimento. E isso pudemos verificar, na última semana, em Lafaiete, quando um templo católico foi tristemente profanado. O autor desse vitupério, segundo suas próprias declarações à imprensa, apresenta-se como um lídimo protótipo de vítima do livre pensamento, sem fundamentos, cognominado arauto do neopaganismo, lamentavelmente por néscia decisão.E, para conforto daqueles que sofrem com essa pública manifestação de decadência ética de nossa sociedade, transcrevo um trecho do sermão proferido pelo cardeal Augusto Álvaro da Silva, em 1927, quando uma igreja, na Bahia, foi profanada e o Santíssimo Sacramento ultrajado: “Meus caríssimos irmãos, não é a vós que me dirijo agora; não, não é a vós. É a Ele, a Jesus Sacramentado! Não é a vós, que sentis também sobre a fronte, vergada ao peso do opróbrio, o raio inflamado da justiça de Deus! Não é a vós, que atirais aos ventos os gemidos de uma aflição sem termo! Não é a vós. É a Ele, no Santíssimo Sacramento! – É a Ti, ó Jesus, realmente aqui sobre este altar, nas mesmas espécies sacramentais em que foste vítima adorável de Teu amor para conosco! É a Ti, Senhor, que se elevam os meus brados de aflição... Nós Te sabemos horrivelmente ofendido na profanação de um dos filhos que me deste, que ousou levantar, contra Ti, mão sacrílega! – Não foi um só o criminoso! Foi meu também. Porque Pastor não fiz chegar, até este infeliz, as vozes claras na presença real... ‘Ai de mim porque calei!’”.

Saudade

Dizem que não se sente saudade, senão daquilo que já conhecera. De fato, a saudade é um sentimento atroz, dorido, um espectro a perseguir todo aquele que a sente. E, quem vive intensamente esse sentimento, acaba mantendo um relacionamento íntimo com ele e esse fantasma se torna amigo; se diagnosticada como uma enfermidade, ela se torna crônica.
Tem-se saudade dos tempos vividos (o vate latino dizia: "Hæc olim meminisse juvabit"), saudade dos parentes e amigos que se foram ou daqueles que estão apenas distantes. Mas a saudade mais pungente é aquele que se sente por quem amou: "Se existe dor no mundo que maltrata / É a dor de ter alguém sem nunca tê-lo...", cantou o poeta; neste caso, de ter alguém sem mais tê-lo.
A saudade de um amor é intensa, às vezes mortal. Sente-a por alguém próximo, mas que está distante; devota-lhe veneração, mesmo sendo vítima da indiferença; e a saudade é quem preenche esse vazio, que continua neste estado de vácuo, não obstante completo de lembranças. Isso, certamente, porque quando se ama - como diz um amigo - tudo se sente ao quadrado: se fica feliz, está exultante; se fica triste, está na agonia da morte.
Ausência e saudade andam juntas, esta em conseqüência daquela. A ausência definitiva, em decorrência da morte, logo se assimila e a saudade alia-se a um sentimento de conformidade com a vontade de Deus. Entretanto, a ausência por uma separação, ainda que seja um desígnio de divino, a separação de alguém de alguém que ama será sempre uma vulnera no âmago, que o tempo poderá até encobri-la com uma pele ressecada, porém sensível, podendo tornar a expô-la ao mais leve toque. E a dor novamente será sentida e o sangue da saudade jorrará em borbotões, intensamente, até que uma nova casca se dorme, susceptível ainda ao mais leve toque, ao ver a pessoa amada, ouvi-la, sentir seu perfume, ou prever sua presença.Melhor seria se toda separação fosse mortal, desta forma seria, ela, sim, definitiva. Pois, às vezes, já não se pode mais tocar a pessoa amada, embora ao meu lado; já não mais falar à pessoa amada, mesmo ouvindo-a; já não mais sentir o seu perfume, apesar exalar-se em todo o ambiente um aroma de sedução; já não mais gozar de sua presença, mesmo estando ao seu lado. Nada mais restaria, senão sorver, até a última gota, o cálice da indiferença e, embriagado pela saudade, perdido no vazio de uma ausência, deixar, levado em devaneios, que se efetue a separação definitiva, mortal... Talvez, assim, poder-se-ia permanecer junto à pessoa amada sem que ela sentisse. Egoísmo? Provavelmente o seja. Importa que essa pessoa amada tenha paz, mas para tê-la o amante teria que estar também em paz. E a paz só se sente próximo de quem ama. Logo...

A esperança

O célebre poeta brasileiro Vicente de Carvalho, em seu "Poemas e Canções" (São Paulo, 1967, página 1), assim canta a "Esperança":
"Só a leve esperança em toda vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência resumida,
Que uma grande esperança malograda."
E a esta quadra o escritor prossegue com o seu soneto, numa fácil e correta observação psicológica, concluindo seus versos de forma melancólica e pessimista.
"Existe, sim; mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca pomos onde nós estamos."
De fato, o homem vive de esperança. Dá-se um rápido e pequeno balanço à nossa própria vida e encontra-se sempre a esperar alguma coisa boa. Melhoria no emprego, saúde, férias, comprar algo que lhe aguça o ímpeto consumista, conquistar a benevolência de outrem ou sua profunda e decisiva simpatia etc. Só com isso, com a esperança, se vive; sem ela tornar-se-ia impossível suportar o pesa da vida.
Por isso, o poeta, depois de bem observar, conclui, amargo, não ser a vida toda, em suma, outra coisa senão "uma grande esperança malograda". Para muitos é assim; mas para outros a vida é mais risonha, oferece bons momentos, atende a alguns anseios. Porém, ao fim, tudo passa. E, o que vem raro, vem como foi sonhado. É aí que Vicente de Carvalho se mostra um pessimista radical, para quem a vida não passa de um engodo, sem nenhum sentido. E somos forçados a concordar com ele, desde que permaneçamos encarcerados nos horizontes terrestres.
Por outro lado, a verdadeira vida, a do cristão, volta-se para bens reais e elevados, embora invisíveis, todavia prometidos por Quem pode prometer e sustentar em sua peregrinação. A verdadeira vida também se alimenta da Esperança. Num outro ponto de vista, os bens são invisíveis, futuros, além do horizonte, mas certos e saciantes. Eles não nos decepcionarão. Antes, ultrapassarão de muito a expectativa: "Nem olhos jamais viram, nem ouvidos jamais ouviram, nem coração jamais sondou o que Deus preparou para os que O amam" (I Cor 2,9).
Para alcançar essa segunda virtude teologal, urge professar a primeira: a Fé. Por ela é que sabemos existir esses bens inefáveis; sabemos que Quem os prometeu é infinitamente poderoso, infinitamente bom e absolutamente fiel. Vivendo disto, vivemos da Esperança e sem ela não se pode viver. Com a Esperança, a vida não só tem sentido sempre, como se torna, a cada dia mais, caminho, degrau, em todas as coisas, nas alegrias e nas tristezas, nos triunfos e nas amarguras, desde que tudo seja feito e suportado com os olhos, mirando além do horizonte, sub specie æternitatis.
A vida vale a pena ser vivida e isso porque a Esperança nos dá alento e sentido a ela, permitindo-nos passar pelos bens temporais sem perder os eternos. Só assim se chegará, um dia, à plenitude da graça e gozar da visão beatífica, junto Daquele que se esperou a vida toda.Aí está como esse alento da vida sustenta, eleva, arrebata e, por fim, aquieta e alegra. Por isso, São Paulo diz estarem os cristãos "salvos em esperança" (Rom 8,24), exortando-os a serem "alegres na esperança" (Rom 12,12). Assim, por mais um desses paradoxos do cristianismo, este "vale de lágrimas" se converte em vale de alegria, escondida, sim, mas profunda, real, alegria que ninguém poderá nos tirar: in spe gaudentes.

O mundo das idéias

Em divagações vesperais, solitário, escondendo-me do castigante frio que nos tem visitado nos últimos dias, ou melhor, nas últimas semanas, permito-me ser levado por pensamentos múltiplos, até que me encontro a pensar no mundo das idéias. Ao falar do mundo das idéias, não me refiro àquele do filósofo Platão, aquele local distante, como que na Lua, mas analiso o mundo sub lunaria, terrestre, o mundo dos homens, mundo tecnológico, científico, filosófico, o mundo político, social e familiar. E quem governa esse mundo não é a força física, atlética, muito menos a força bélica ou política, mas a força do pensamento, do raciocínio, das idéias; o resto é conseqüência.
São as idéias que fazem o herói ou o fanático, que moldam o caráter de um construtor ou de um revolucionário, que regem os princípios de um cristão ou de um herege, que conduzem as metas de um educador ou de um manipulador, que "constroem" um homem ou um monstro. As ações, no início, podem até ser semelhantes, mas as idéias é que fazem a diferença, e as conseqüências mais ainda. Idéias postas como meta e princípio de ação chamam-se ideais. Foram idéias, por exemplo, de "pão e circo" que fizeram a decadência do Império Romano, assim como o ideal de disciplina e austeridade havia feito a sua grandeza. Da mesma forma como os ideais cristãos transformaram os bárbaros, violentos e destruidores, em pacíficos e ordeiros agricultores, construtores de uma sociedade considerada, por muitos, quase perfeita e dos grandes monumentos góticas do Velho Mundo, que, ainda hoje, os que restam, encantam a todos que os contemplam.
Assim, idéias de grandeza e de puritanismo de raça fizeram Hitler e o seu hediondo nazismo; idéias igualitárias, materialistas e atéias de Marx Hegel e Feuerbach geraram o comunismo frio e cruel; idéias fanáticas geram, hoje, os temíveis homens-bomba do Oriente Médio; tudo isso porque as idéias não permanecem na cabeça ou no escritório, por conseguinte elas descem às ruas e às praças, infiltram-se e revelam-se na sociedade, disseminando-se e contaminando a todos, muitas vezes com avassaladores resultados. Obviamente, se tenho como conceito de vida a idéia materialista de que o homem é apenas 70 quilos de carne e osso e que não há alma e nem um Deus remunerador, o que me impediria de satisfazer todas as minhas paixões, ainda que à custa da destruição do meu próximo?
Portanto, cabe aos educadores de nosso tempo formar nos educandos idéias sadias, ou melhor, fazê-los chegar a conclusões de idéias sadias, bem fundamentadas nos princípios morais (que moldam o caráter de cada um) e nos valores éticos (que constroem uma sociedade ilibada); o resto é superficialidade. Educação sem convicções é formalismo; disciplina apenas sob vigilância é militarismo; imposição sem ideal é autoritarismo.As idéias são sementes que, semeadas na ocasião propícia, fertilizam nas ações. Quem cultiva boas idéias colherá boas ações e ajudará a construir este mundo de idéias e de ideais, grandes e nobres; ajudará a construir um mundo melhor.

A degradação e a história

Uma lei imposta ao homem, em decorrência de sua natureza, é a degradação. Não num processo de conseqüentes mutações orgânicas, alcançando o amparo de pensadores modernos e suas teorias mirabolantes, mas uma ordem imposta pela decadência do homem, infligida pelo pecado original.
Deixando as constantes, polêmicas e inúmeras discussões acerca da ordem natural da criação, passemos a uma breve análise da degradação e do fim das cousas. Enquanto a degradação, com relação ao homem, soa-nos como um aviltamento, o rebaixamento, abjeção, uma decadência moral, o exaurir de uma capacidade protuberante à vida por causa de frustrações variadas, já o fim pode ressoar melhor como o coroamento de um feito, a transposição de uma fase, o ponto culminante de uma realização. Assim, não há um dia sem o seu crepúsculo vespertino, alcançando novamente o alvorecer de um novo dia; não há uma vida terrena que não chegue ao seu final, para que possa, então, alcançar a vida eterna; e a própria caminhada da humanidade tende a chegar a um estágio de perfeição, que será o final da peregrinação neste mundo e o limiar da contemplação e da convivência beatífica na nova Jerusalém, como nos assegura São João (Apoc 21,2).
O contrário da conservação verifica-se em todo o macrocosmo e o homem, embora dotado de faculdades intelectuais, é o mais vulnerável à degradação. Esse processo é um atentado contra o corpo, flagelando-o com o açoite da indisciplina, do desregramento, com o desrespeito a este templo do Espírito Santo que São Paulo diz sermos (1 Cor 3,16). Em conseqüência, padece a alma com essa violência que só a afastará mais e mais da graça.
Buscando conter a repetição de erros ou simplesmente perpetuar os fatos, como os primitivos registros em pedras feitos em tempos remotos, é provável que Deus Nosso Senhor tenha distinguido algumas inteligências com o privilégio de trazer os mortos aos vivos, apresentar ao presente o passado, para que sua luz clareie os passos do futuro. Isto é a história. Um fanal cuja luz reflete a experiência da humanidade para o futuro – “Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriæ, magistra vitæ, nuntia vetustatis” (A história é, na verdade, a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da Antiguidade), como primorosamente a define Cícero (De Oratore – II, 9-36). Neste contexto, não podemos nos esquivar em admitir a intenção divina na história, exposta de maneira oportuna por Monsenhor Bossuet em seus “Discours sur l’histoire universelle” (1681). Desta forma, os episódios que marcam todo o percurso da humanidade, os fatos que assinalam as diversas fases e os seus feitos, escapam do jugo da degradação.
Nos últimos tempos, tem sido freqüente a busca das origens, das raízes culturais e sociais de antigas localidades e de famílias que compuseram uma sociedade eclética nestes brasis, onde o branco misturou-se com o negro e o índio, confundindo-se a cultura européia com os costumes afros e indígenas e, mais recentemente, com as imigrações dos séculos XIX e XX, surgindo, assim, a sociedade brasileira.Talvez seja esta a missão transcendental desta Terra de Santa Cruz: unir os povos, despi-los de todo o preconceito e integrá-los num todo, formando uma só raça, composta por todas, ou quase todas, as demais que se encontram espalhadas pelos cinco Continentes. Com isso, muita cousa cai por terra e a máxima do amor fraterno aos poucos vai se tornando realidade. Um processo longo que veio se arrastando pelos dois primeiros milênios da Cristandade e, pelo já visto, ainda muito se prolongará até que se atinja o ápice dessa sociedade perfeita, quando os povos, libertados das falsidades ideológicas (inclusive daquelas que afetam questões morais e doutrinárias) que vem contaminando a humanidade ao longo dos séculos, terão, enfim, “unus Dominus, una fides, unum baptisma” (Eph 4,5).

Vandalismo assustador

É simplesmente assustador o vandalismo em Lafaiete. Os torpes atentados contra patrimônios particulares e públicos têm sido tão constantes que, às vezes, passam de forma despercebida. Mas, diariamente, orelhões, abrigos de ônibus, lixeiras, bancos e mesas colocadas nas praças e áreas de lazer aparecem quebrados, arrancados e revirados. As pichações, então, parecem ser uma forma de agressão mais violenta ainda. Com uma grafia em talhos agressivos, supondo-se códigos sabe-se lá do quê, é impossível entender se se trata de uma profecia, impropério ou simples irreverência; uma poluição visual, além do dano causado ao proprietário do bem pichado. Além dessas e mais algumas outras formas que bem mostram o vandalismo em nosso meio social, existem aqueles que se manifestam transitando pelas ruas com som ligado e em alto volume no automóvel, promovendo desordens pelas ruas, esmurrando portas, quebrando vidros. Esses "predadores" sociais devem trazer no sangue bastante remota, mas fortemente ativa, algum caractere de um antepassado bárbaro, também vândalo, como aqueles que cuidaram em assolar grande parte da Europa e África em priscas eras.A situação não é simples, meramente uma anarquia. Mais que uma explosão de rebeldia, é a conseqüência de décadas de descaso para com um submundo que foi se armando e, sem nenhum plano estratégico, deixou apenas extravasar todo o seu instinto, uma audácia que não perdoa a ninguém, nem a eles próprios. Em Lafaiete, prédios de repartições públicas, bustos, placas de sinalização, enfim, tudo o que se torna um alvo fácil, principalmente quando se trata de um patrimônio público, ou histórico, ou artístico ou religioso. Infelizmente, poucas vezes esses infratores recebem uma lição, como no caso de um menor que, há alguns anos, após ter sido descoberto como sendo o autor de algumas pichações na sede da Cohab, foi obrigado a apagá-las. Ante toda essa confusão, esses atentados que vem criando barreiras na convivência humana e dominando as elites, toda a população de Lafaiete deve ser conclamada a uma mobilização geral contra essas agressões morais e éticas desferidas na sociedade. O Poder Público tem feito sua parte e em momento algum tem se omitido quanto à gravidade do problema. Mas é preciso mais do que isso. Necessita-se urgentemente que a própria sociedade tome consciência que esses episódios constituem uma anormalidade que só tende a crescer. Hoje, estão destruindo bancos, lixeiras, monumentos; amanhã os vândalos estarão atacando as casas; aliás, algumas já foram, com pichações e depredações. O direito que cada cidadão tem de liberdade de ir e vir está se tornando vilipendiado, inibido por aqueles que querem dominar os meios em que vivem, e a isso toda a população tem que reagir, denunciando à Polícia toda e qualquer anormalidade. O vandalismo é o prenúncio da violência e o arauto que a mantém firme, de pé, como uma milícia beligerante. Se os vândalos querem guerra, que a tenham, mas não da forma como a promovem. Deverão sentir o peso do braço secular a condená-los e castigá-los por suas ações. E todos têm que contribuir para que essa Justiça seja feita.

Não matarás

A legislação divina, em seu quinto artigo, veda ao homem ofender a existência em geral, seja da própria vida ou a de outrem, neste caso a dupla vida, do corpo e da alma: "Não matarás" (Dt 5,17). Mas um outro mandamento vem de encontro a esse, o oitavo: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Dt 5,20). O primeiro sentido, claro, é o de não proceder a depoimento falso, mentiroso. Todavia, uma interpretação "senso lato" do artigo analisa-se a mentira, a difamação e a injúria, golpes estes que, não poucas vezes, atingem mortalmente a honra, o corpo e a alma. E, talvez, a que fere deveras mortalmente é a difamação, prejudicando, injustamente, a reputação do próximo, tendo como arma a língua; como projétil o verbo.
Os meios que o difamador lança mão para alcançar seus fins são a calúnia, a maledicência ou murmuração e a delação, aliás, muito comuns em nossos dias, em que os princípios éticos facilmente são acalcanhados, em benefício de interesses mesquinhos ou pela simples satisfação de ferir a fama alheia. - Quantas pessoas são, por isso, prejudicadas, quantas honras maculadas, quantos corpos enfermos e quantas almas feridas pelo veneno desses "diabolos"? Inevitavelmente, muitas vezes, somos obrigados a conviver com esses asseclas do príncipe das trevas, que os atrai, mais e mais, a cada novo golpe, para os ergástulos de todos os vícios, onde imperam a inveja, o orgulho e a presunção. Por mais que insistam em justificar seus atos, jamais deixarão de ser assassinos morais, pois as conseqüências de suas atitudes são sempre más.
Mais repugnante ainda são aqueles que, dissimulados, chegam a se apresentar, ora como vítimas, ora como protótipos de uma conduta ilibada. Contudo, ao final, conhece-se sua intenção. Assim, se a difamação faz-se a um superior, propõe-se a desacreditar e incompatibilizar a vítima; se a um parente ou amigo, desmancha a amizade, alui a confiança, perturba o sossego do lar. E nessa súcia há difamadores de toda espécie, dependendo do grau de sua pusilanimidade, uma vez sua atitude facínora nada mais ser senão um modo de encobrir suas fraquezas.Na hierarquia dos difamadores há os insignificantes, a quem pouco crédito se dá, pois não gozam de uma reputação capaz de endossar suas atitudes. Os conspícuos, morigerados e reservados, por sua vez, são perigosos, valendo-se de um falso prestígio para que suas palavras causem impressão. Porém, os piores de todos são os que denominaríamos "fariseus hodiernos": pérfidos cristãos, mostrando-se tementes a Deus e sinceros, enquanto, na verdade, não passam de celerados, promotores da discórdia, assassinos de almas; pena esquecerem-se da admoestação evangélica: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus" (Mt 7,21). - Quanto a eles, julgarem-se sinceros é um desrespeito aos probos e cultos, pois a sinceridade só vale se amparada na caridade, e esta virtude a desconhece essa corja de difamadores. O homem deve, sim, falar sempre a verdade, mas não todas as verdades - isto é um princípio moral, o que não quer dizer que deva mentir. A sinceridade manda pensar tudo o que se irá dizer, e não dizer tudo o que se pensa. A discrição manda calar o que não é oportuno, manda ponderar as palavras e silenciar os segredos. A sinceridade e discrição são duas virtudes preciosíssimas por igual. Se fossem abstraídas pelos difamadores de plantão, vendetas da discórdia, talvez a sociedade seria mais justa e fraterna.

Amar sem ser amado

“Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16) - eis o amor extremoso de Deus para com a Humanidade. Após a obra maravilhosa da Criação, e da consumação da Graça pela desobediência, “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14) para resgatar-nos do cativeiro.
A ofensa infinita, cometida desde Adão, nosso primeiro pai, não poderia ser reparada pelo próprio homem, criatura limitada e culpada. Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo tomou nossa natureza, sem perder sua Divindade; só assim a reparação foi igual à ofensa: infinita e universal.
Só por amor, Jesus Cristo “humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz” (Flp 2,8). Cristo não se prevaleceu de sua Majestade Divina, preferiu aniquilar-se até à obediência da cruz, para nos ensinar a humildade e a obediência. “Assim como esteve três horas na cruz - nos diz S. Afonso -, se fosse necessário estar nela até o dia do juízo, ele teria amor para o fazer. Jesus Cristo amou muito mais do que sofreu”.
Na instituição da Eucaristia, Jesus Cristo demonstra, mais uma vez, seu amor. Sabendo que chegara sua hora, “deu-se todo, não reservando nada para Si”, diz S. João Crisóstomo. “Neste dom da Eucaristia, Cristo quis derramar todas as riquezas do amor que reservava para os homens” (Conc. Trento, Sess. XIII, c. 2). São Tomás de Aquino chama-o de “sacramento de amor, prova de amor”. E Santo Afonso comenta, ainda, que “Cristo não contentou seu amor apenas dando-se todo ao gênero humano pela encarnação e paixão, morrendo por todos os homens. Quis ainda encontrar o meio de dar-se todo a cada um. Instituiu, por isso, o sacramento do altar a fim de unir-se todo com cada um de nós”. Segundo São Bernardino de Sena, “o dar-se Jesus Cristo a nós como alimento foi o último grau de amor”.Poderia encher folhas e folhas de exaltação ao amor de Deus, que seriam baldadas, se não souber retribuir com amor Aquele que nos ama “com um amor eterno” (Jr 31,3). Que a humanidade redimida saiba retribuir esse amor eterno de Deus e faça como São Francisco de Sales exorta, lançando-se sobre “Jesus crucificado para morrer com ele na cruz” e, como exorta o beato Columba Marmion, “devemos amar a Deus totalmente, amar a Deus com toda a nossa alma, com todo o nosso espírito, com todo o nosso coração, com todas as nossas forças: é amar a Deus, aceitando, em toda a sua extensão, o que a sua santa vontade prescreve”. Corramos em busca desse Deus que tanto ama e, muitas vezes, não é amado.

Diretas Já!

Tem-se comemorado, pelo país afora, nos meios políticos, os vinte anos do movimento "Diretas-Já", que mobilizou toda a nação, convocando-a a participar do processo de redemocratização a se desenrolar naquela época. Em Minas, o ponto alto dessa comemoração, até o momento, teve lugar em Ouro Preto, durante as festividades do 21 de Abril. O governador Aécio Neves, neto de um dos líderes do movimento, o presidente Tancredo Neves, presidiu, entusiasmado, a manifestação que lembrava os quatro lustros daquela manifestação nacionalista que, embora sem alcançar o seu objetivo em seu acalorado momento, encorajou a todos os brasileiros a tomarem parte daquele instante cívico que marcaria o limiar de uma nova fase na história da república.
Analisando todo esse processo, vemos quão complexas são as conjeturas que regem o desenrolar e as tratativas políticas no Brasil, e quase nos convencemos de que essas manifestações populares de nada valem, se não houver um interesse por parte dos verdadeiros "administradores", aqueles que decidem as medidas a serem tomadas. Desta forma, tem se desenrolado toda a história do Brasil, desde os seus primórdios. E dois exemplos podemos apresentar, uma vez estarem sendo lembrados no momento: a Inconfidência Mineira e a Revolução de 64.
A Inconfidência Mineira, movimento de cunho puramente nacionalista, ao idealizar a fundação de uma nação, com um projeto compromissado com o desenvolvimento e a valorização dos produtos da terra, gorou por causa da ambição e dos interesses particulares que começaram a aflorar, primeiramente, em seu meio. O povo poderia até ter conhecimento dos planos de um levante contra o domínio português, mas a desconfiança (dizem-na peculiar dos mineiros) e sua completa ausência a engrossar a fileira dos conjurados contribuíram para com o seu malogro. É verdade que grande parte da população não desconhecia o movimento, tanto quanto é verdade não terem, mesmo assim, dele participado, como alguns estudioso sugerem. Caso contrário, aconteceria o levante, mesmo com a devassa. Ainda que sem a participação das massas, o movimento obteria êxito, se fosse do interesse, naquele momento, das potências; a pretensão delas fora apenas desbaratar a conjuração e castigar apenas um, desde que se enquadrasse ao moldes do responsável ideal pelo movimento, ou seja, filho da terra, comprometido claramente com o movimento, fiel às suas idéias e sem nenhum respeito humano quanto a elas.
Na Revolução de 64, mais uma vez, essas "forças ocultas" (como já as denominara o presidente Jânio Quadros) só quiseram atender aos clamores das classes alta e média, uns com os seus interesses pessoais e outros com os seus princípios morais, visivelmente demonstrados nas manifestações de círculos sociais e através das marchas "Com Deus pela Família". Temendo, ingenuamente, o governo fraco e instável de João Goulart, deram uma "procuração" às Forças Armadas para que agissem "em defesa da integridade da Nação". Estas, sequiosas pelo poder desde que se julgaram fortalecidas com a atuação da FEB na 2ª Grande Guerra, acalcanharam a democracia, depondo um governo legitimamente eleito (lembre-se que, embora o fora como vice-presidente, Jango não deixou de ser confirmado no cargo de presidente por ocasião do plebiscito), e acalcanharam também o povo, impondo-lhe um regime ditatorial. Se fosse interesse deles o de atender aos "clamores" de grande parte da população, teriam, sim, deposto, como depuseram, João Goulart, mas convocariam os brasileiros a um pleito a fim de eleger o novo presidente. Mais uma vez, ficaram os brasileiros à margem dos interesses comuns.Finalmente, as "Diretas-Já", mesmo levantando milhões de pessoas em todo o país, não alcançaram o seu objetivo. Ora, o processo de reabertura política começara, alguns poucos anos antes, tomando impulso a partir da eleição do brigadeiro João Batista de Oliveira Figueiredo. Então, era claro que chegaria o momento em que a redemocratização aconteceria plenamente (evitando-se, aqui, algumas reservas acerca desse tema). As "Diretas-Já" venceram no Congresso Nacional, mas só para as eleições seguintes ao pleito previsto para 1985, o que conseqüentemente aconteceria com a promulgação de uma nova Carta Magna. Por isso, as "Diretas-Já" foi apenas mais um movimento popular em nossa história, apresentando-se ter conquistado seu ideal, enquanto, na verdade, foi apenas o pano de boca do que realmente acontecia nos bastidores da história.

Quando Deus é morto

A seqüência de atentados terroristas e o crescimento assustador da violência em todo o mundo levam o homem, numa crise de consciência para alguns, ou tentação contra a fé para outros, a se questionar: “Deus existe?”.
A existência de um ser supremo, de uma força superior, que tenha ordenado e coordena todo o ciclo e evolução da natureza, é inquestionável. O racionalismo não é capaz de manter-se equilibrado, sozinho, em suas teorias; acaba prostrando-se ante as dúvidas que acabam se apresentando, só encontrando respostas ao crer que há algo a regular toda uma ordem natural no universo.
Mas os equívocos que se formam em torno desse tema, ou seja, essa força superior, ordenadora, confundem, não poucas vezes, a inteligência humana, levando os homens a promoverem uma verdadeira barbárie em nome de uma crença. A mais antiga, que ainda prevalece, não obstante inúmeras tratativas diplomáticas, é entre cristãos e mulçumanos. Estes continuam irredutíveis em sua posição radical e, para nossos dias, obsoleta; aqueles primeiros, com um siso aparentemente flexível, revisaram, nos últimos anos, muito de sua conduta, abrindo-se ao diálogo, à tolerância, ou compreensão, assimilando de maneira mais límpida o sentido de liberdade.
Contudo, toda pessoa que goze de uma compreensão lúcida em nossos dias, saberá que o motivo verdadeiro de todo esse processo aterrorizante é de origem mais política do que religiosa. O domínio do mundo, a ânsia pelo poder temporal, sempre foi a razão pela qual a terra, inúmeras vezes, foi regada com o sangue do homem. E nesses momentos beligerantes, sob o olhar do Ser Supremo, sob os olhos de Deus, os homens, todos, não passam de fratricidas.Nesses mesmos momentos, no subconsciente dos promotores dessas guerras estúpidas, certamente uma só é a condenação que lhes toque: DEICIDAS. É quando, então, ainda que não declarem publicamente, intimamente sentem que Deus é morto, pois, na verdade, não lutam por ele (e nem seria possível tal absurdo), ao contrário, lideram essa hecatombe para alimentar o seu amor-próprio, em função do qual se avassalam todos os vícios.

Doce ilusão

O povo brasileiro parece ter a vocação para viver iludido; e a esse chamado sempre se corresponde prontamente, mais ainda quando vai às urnas em mais um pleito eleitoral. Esse fenômeno se verifica desde que os ingênuos tupiniquins acreditaram que viveriam regidos por uma democracia. Mas esses sistemas, cujos reflexos de suas perfeição já se refletiam nas inteligências da Grécia Antiga, até hoje não alcançou um estágio de estabilidade, assegurando ao homem satisfação pessoal e comunitária. Entretanto, essa conquista só se realizará quando todos, indistintamente, gozarem de uma sinesis comum; desta forma, a humanidade estará caminhando num único sentido, em busca de um mesmo ideal.
No entanto, isso parece impossível e que nunca irá ocorrer. As atitudes dizem por si, sejam elas dos governantes e do povo. Existe uma discordância nos atos e no juízo de todos, de modo que, impossibilitado de apoiar-se em algo firme para, a partir daí, impulsionar-se na busca de um ideal, o homem prefere iludir-se com o modismo; aliás, uma potente arma usada por aqueles que cuidam em manipular a todos. E a democracia é uma dessas armas, ou melhor, não o sistema em si, mas a exploração dessa utopia, engodo a seduzir os inocentes que acreditam numa colheita de pomos d’ouro na safra de benesses que lucrariam com o governo de povo.
Buscando entender melhor esse conturbado processo, tomemos como paradigma o MST. Seu objetivo já era discutido no final do segundo reinado do Brasil, quando, acerca da abolição da escravatura, uma ala defendia a necessidade de se proceder a uma indenização aos negros, concedendo-lhes terras onde pudessem se fixar e dela tirarem seu sustento. Venceu, porém, o açodamento com que, comumente, são tomadas as decisões políticas no Brasil, que carecem de mais estudos e planejamentos, antes de serem executadas, e os cativos, depois de libertos, foram colocados, muitos deles, no olho da rua, sem ter para onde ir. Iniciava-se, assim, um outro processo social que não é o enfoque deste momento. Mas essa reforma agrária proposta lá nos oitocentos volta a ser cogitada quando as idéias socialistas começam a se difundir no Brasil. Sufocadas pelos governos elitistas, em atenção a seus patrocinadores, somente há uma década, mais ou menos, a reforma agrária começou acontecer, e todos vêem que ela não e nenhum bicho-papão, como diversos setores e instituições apresentaram-na a nação por muitos anos. Até aqui, tudo parece correr bem, se não fosse o MST, ou melhor dizendo, se não fossem algum membros do MST a conturbarem todo esse processo, promovendo assentamentos a forca desafiando o governo e o projeto de reforma agrária. Tudo isso para disporem de mais um argumento a fim de iludirem as pessoas ingênuas que, desesperadas com tantas injustiças, incapazes de enxergar a um palmo do nariz, dão ouvidos a qualquer leguelhé que se mete a pregar sobre direitos humanos e justiça social. O governo, por sua vez, e culpado por não tomar uma atitude enérgica contra esses oportunistas que, a sombra do MST, fazem sua campanha. O Brasil não vive um sistema democrático, como tal o é. O povo tem que se conscientizar que essa democracia tão apregoada não passa de uma doce ilusão, e esta sinestesia tem que ser desmascarada ante a reação dos brasileiros, não com atitudes de revolta, mas de dinamismo na construção de uma sociedade mais justa. Somente desta forma avistar-se-á talvez, um dia, a democracia.

Revolução

Etimologicamente, revolução significa voltar, gira, realizar uma volta completa, originando-se do verbo latino revolvere. Esse termo, empregado inicialmente em assuntos referentes à astronomia, ganhou o novo sentido, mais naturalista, como uma catástrofe natural, alteração integral, fundamental e objetiva do contexto social a partir do Renascimento. A credulidade excessiva levava os homens a acreditar que as revoluções eram processos cíclicos de forças astrais interferindo nos acontecimentos. Houve um momento em que seu sentido passou as ser mais subjetivo, tornando o homem o senhor da historia. Entende-se, então, ser a revolução um rompimento imediato a uma seqüência de fatos de grande alcance na continuidade se um sistema social, seja ele político ou apolítico, embora no primeiro caráter seja mais explorado.
Uma revolução para acontecer, depende de condições objetivas e só poderá ocorrer, logicamente, em uma situação revolucionaria; e isso, apenas, se houver uma classe separada para desempenhar seu papel, ou se uma liderança resoluta reconhecer, a articular e dirigir as forcas revolucionárias de seu tempo. Desta forma se desenrolaram varias revoluções ao longo de historias, sejam elas sociais, culturais ou políticas.
Há quarenta anos, no dia trinta e um de marco, o Brasil assistia a mais uma revolução política. A insatisfação de diversos setores da cidade, naquela época, somada a insatisfação de alguns círculos militares oposicionistas, derrubou João Goulart, a esperanças das massas. Como dizem que a esperança é a ultima a morrer, Jango passou e esta continua a ser alimentado por muitos. Se o governo tinha o apoio de grande parte da população, principalmente das classes media e baixa, de políticos e ate de alguns militares, por que não resistiu a sublevação militar? Teria sido, o presidente, tomado por uma tibieza, ou afetara-lhe uma comiseração pelos brasileiros, evitando um desgaste social e até um possível derramamento de sangue? Não se sabe ao certo. A deposição de João Goulart foi tão somente um momento histórico, a partir do qual um novo instante se iniciou desenrolando um processo alheio ate certo ponto, a sua política. As medidas e propostas, com um insinuante princípio socialista, eram apenas um reflexo dos bastidores de seu governo. Como ele se encontrava em cena, representando um papel que o “ponto” lhe assoprava, desde o seu “resgate” na china, após a renuncia de Jânio Quadros, era impossível saber o que estava por vir. Talvez, daí, o real motivo de sua rendição. Não há motivos, por tanto, para comemorar os quarenta anos da revolução de sessenta e quatro. Há, sim, que estudar sobre todo o processo que se seguiu ate a pseudo-restauração da democracia vinte anos depois.

Onde está a verdade?

Todos os pensadores, certamente, chegaram a um instante de dúvida em sua vida e se indagaram: o que é a verdade? Todo homem, por ser um ser pensante, talvez tenha essa dúvida. Suscita-nos, sobre esta, outra inquirição obrigando à mente: se a verdade é a adequação do intelecto à coisa, ela é mutável?
A dúvida se origina da afirmação de que a verdade adquire sua forma no intelecto; o intelecto é que se adequa à coisa. Não que nos deixamos ser levados por uma dúvida universal, mas sugere-nos uma ligeira incerteza quanto à certeza da verdade. É claro que algumas afirmações logicamente são verdadeiras - no sentido em que se subentende o termo, pondo abaixo a suposição de uma dúvida universal, aliás, como Santo Agostinho a ridicularizara: "Aquele que não existe não pode se enganar. Ora, eu me engano. Logo, existo. Como posso me enganar, quando é certo que eu existo se eu me engano?"; o embaraçado cético estira-se ao chão com este raciocínio, simples, porém desarmador.
Todo esse devaneio decorre da propaganda de falsos pressupostos adotados como postulados. A propósito, postulados são princípios que se pressupõem como verdadeiros, sem necessidade de demonstração. Sobre alguns falsos pressupostos, lembramo-nos de alguns, como: "Todo rico é suspeito e todo pobre é bom", como se apenas o fato de ser afortunado, ou não, constituísse um valor moral. Há ricos e pobres bons e maus, em toda a parte e por muitas razões. Equivocadamente, da mesma forma, alguns afirmam que "todo patrão é mau, todo empregado é bom". Poderíamos citar outros falsos pressupostos, com a finalidade de ilustrar este artigo, o que se torna desnecessário. Fizemo-lo apenas para demonstrar o quanto se propagam falsos conceitos na sociedade, nos quais se apóiam iniciativas e atitudes a afrontar qualquer pessoa de bom senso.
Há alguns anos, na Itália, durante uma reunião semelhante à de líderes comunitários, discutia-se a razão de um certo partido político da época, tido como de uma pseudo esquerda, crescer tanto, enfraquecendo uma ala mais sensata. Em um dado momento, um ex-militante do combatido político, presente àquela reunião, mostrando-se claramente conhecer daquela situação, disse: "É porque falávamos a mentira, mas com toda a desfaçatez e coragem como se estivéssemos falando a verdade. Hoje, aqui, falamos a verdade, mas com um medo terrível, como se estivéssemos mentindo".Por isso, a dúvida sobre a verdade existe e prevalecerá. Enquanto os oportunistas e charlatões continuarem a defender suas mentiras, convictos de que elas sejam verdades, e as pessoas de bom-senso permanecerem tíbios ante as situações que exijam energia de suas partes, teremos de continuar convivendo com esses ilusionistas da moral e da ética a perderem o seu tempo, e o nosso.

Polêmica Milenar

Mais uma vez na história, o povo judeu se levanta, protestando contra algo que lhes parece discriminação. O filme "A Paixão de Cristo", dirigido pelo ator Mel Gibson, lançado ontem, dia 19, no Brasil, tocou num ponto inflamado da relação entre judeus e católicos desde os primórdios da Igreja, mesmo com ecumenismo pós-conciliar. O Filho do Homem, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, a luz que se acendeu para o cativo da graça, que preferiu mais as trevas à luz - tudo isso conforme a doutrina católica, é o protagonista do longa-metragem que, apenas em um dia de exibição nos Estados Unidos, teria arrecadado cerca de US$ 23 milhões.
Só que, nessa querela, a vítima do preconceito tem sido o diretor do filme. Católico de linha tradicionalista, Gibson buscou fundamentar seu trabalho apenas nos relatos bíblicos, aliás, única fonte de pesquisa remanescente daquela época. Com um olhar mais crítico, há quem diga que o próprio diretor é quem teria fomentado a polêmica, alcançado o resultado almejado, ou seja, um recorde em bilheteria.
De acordo com os evangelistas, a morte de Cristo deveu-se unicamente à ira dos anciãos e sumos-sacerdotes, tendo à frente Anás e Caifás, que teriam instigado a turba dos judeus e exigido do governador Poncius Pilatus medidas enérgicas contra aquele que se dizia o Messias. A questão era, portanto, estritamente "familiar"; eles conheciam as Sagradas Escrituras e sabiam que as profecias se aplicavam muito bem sobre Jesus Cristo. Talvez temendo uma reação (ou conversão) do povo que o seguia, recorreram ao rigor do que hoje seria o "braço secular", naquele caso, o Império Romano, árbitro desinteressado por uma causa que não lhe oferecia, então, perigo algum.
Voltando à questão da polêmica que se formou acerca do "A Paixão de Cristo", não há motivos para tantas reações e manifestações por parte dos judeus, como as ocorridas na América do Norte desde o lançamento do filme. Naquele momento histórico, de acordo com as fontes documentais que mais se aproximam daquela época, os responsáveis pela morte de Cristo foram eles, sim, descartando-se, hoje, qualquer hipótese de retaliação contra essa gente por causa de um episódio que se passou há quase dois mil anos. Por outro lado, se o Messias tinha que padecer e morrer para a salvação de todos, alguém teria que possibilitar esse desfecho.Os judeus sempre foram perseguidos - o que, porém, não lhes permite se considerar eternas vítimas , quiçá por ser um povo fiel aos seus princípios, crédulos (mas pouco confiantes) no Javé que os tirou do Egito, levando-os, pelas mãos de Moisés, à Terra Prometida. Os fatos históricos só servem de espelho enquanto possam refletir ações benéficas ao crescimento da humanidade; jamais como um martelo a sentenciar a posteridade. Por séculos, até a bem pouco tempo, os judeus eram um povo sem pátria e sem altar, dispersos pelo mundo, lutando contra o preconceito. A reação de grupos judaicos nada mais é, senão uma conseqüência do trauma de perseguição que trazem consigo desde as mais remotas gerações. Certamente, Mr. Gibson não teve a intenção de fomentar o anti-semitismo, até mesmo por causa da caridade fraterna que, como católico fervoroso que se apresenta, deve reger seus atos. Se ele promoveu um alarido com a sua fita, é provável que o tenha feito somente com vistas ao sucesso da obra. E conseguiu.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Direito à vida

O princípio da inviolabilidade do direito à vida é um assunto assaz delicado. A nível político, é sumamente urgente observar os valores e os direitos humanos como seu fundamento último. À medida em que lucramos o respeito desses valores no nível político, se reconstituirão sociedades mais sadias e uma maior proteção do direito à vida. Ora, se as leis são feitas para serem obedecidas, devemos, pois, criar leis que beneficiem os cidadãos que salvaguardem os direitos universais deles. Se estas práticas não se fizerem adequadamente, o efeito será devastador.
Aí, então, surge a polêmica da eutanásia. Entende-se esse procedimento como o fim antecipado, e não natural, adotado para “evitar” o sofrimento ao enfermo, numa situação irreversível e em fase terminal (humanamente falando) ou para por termo a uma senilidade ou enfermidade. Desafortunamente, a cada dia aumenta o número de países que legalizam essa prática. Por isso, dever-se-iam as instituições pró-vida, assim como alguns órgãos têm feito, destacando-se a Santa Madre Igreja, levantar-se e mobilizar os legisladores desses países para prevêem rigorosas penas àqueles que praticam esse crime, a eutanásia.
“Morte doce” ou “morte digna” são expressões manipuladas para suavizar a culpa desses celerados. Por que não afirmar que a eutanásia ativa ou passiva, individual ou coletiva, consensual ou não consensual, todas elas significar matar a uma pessoa? Às vezes, a ação é direta, como a eutanásia ativa, e outras vezes é por omissão, como a eutanásia passiva, porém, ambas, são práticas igualmente más, por atentarem contra a integridade e a dignidade pessoal e por conceberem a idéia de que á vida é um direito do qual se pode dispor quando se quer. Ora, a vida é um dom que devemos cuidar e que não nos pertence, muito menos nos toca decidir quando por fim à nossa própria existência.Devemos estar atentos para não nos influenciarmos com a suposta “qualidade de vida” e “morte digna”, aceitando realidades que nos destroem como sociedade. Urge retomarmos os valores espirituais, fundamentais para levar uma vida digna, correspondendo às exigências da natureza humana. O direito positivo deve apoiar-se justamente neste direito natural e devemos lutar por isso, para conseguirmos que os valores universais, como o direito e a proteção à vida, possam prevalecer sobre os pseudo-valores tão em moda em nossos dias.